No dia primeiro deste ano, o Brasil mostrou ao mundo uma bela imagem de civilização e de humanidade. O presidente Lula, eleito para um terceiro mandato, tomou posse na presença de dezenas de delegações estrangeiras e de milhares de pessoas que assistiram pela televisão e pelas redes sociais os sinais evidentes de que o Brasil é uma democracia, respeita as leis e a vontade de seus eleitores. E, diante da fuga do ex-presidente para o exterior, para não passar a faixa presidencial, o povo brasileiro o fez pelas mãos de uma mulher negra, de uma criança de comunidade, do cacique Raoni, símbolo-mor da resistência dos povos originários, de um deficiente físico e de outros brasileiros convidados para nos representar naquele ato simbólico. Foi linda a festa! Parecia que o ano tinha começado bem.
Uma semana depois, tudo desandou. Centenas de ônibus lotados de bolsonaristas raivosos, financiados por milícias e por empresários descontentes com a eleição do Lula, chegaram a Brasília e se juntaram aos que lá já estavam aquartelados, todos vestidos com a camisa da seleção brasileira de futebol, alguns enrolados em bandeiras nacionais e, escoltados por forças policiais, marcharam em direção à Praça dos Três Poderes, invadiram as sedes do Congresso Nacional, do Palácio da Justiça e do Palácio do Planalto, destruindo tudo, num ato de selvageria e barbárie jamais visto em nosso país. Longe do conflito, isolado por barreiras que caíram com as chuvas torrenciais, assisti a umas três horas de terror: pessoas enlouquecidas quebraram as vidraças dos palácios, adentraram os recintos e saíram destruindo tudo o que viam pela frente, desde os móveis utilitários às obras de arte que fazem parte do patrimônio histórico nacional. Um horror! A pouca guarda ali disponível pouco fez diante daquela multidão e alguns até fizeram vistas grossas, não cumprindo seu papel de defesa e de segurança dos prédios públicos.
Houve uma reação imediata dos Três Poderes, apoio maciço da maioria do povo brasileiro e dos chefes de estado estrangeiros, a democracia foi restabelecida. A intenção dos vândalos era provocar a desordem, propiciando um golpe militar, com a volta de seu chefe, que de longe a tudo assistia, juntamente com o seu ex-ministro da Justiça, recém-nomeado como Secretário de Segurança do Distrito Federal e que, sabendo do movimento de golpistas em marcha a Brasília, saiu do país, para que tudo ocorresse como o planejado. Exonerado no mesmo dia, teve a prisão decretada e deve se juntar aos mil e tantos detidos no dia da tentativa de golpe.
Talvez o dia 8 de janeiro fique na história como o dia da intentona bolsonarista, um episódio que jamais será esquecido, para não ser repetido.
A bandeira nacional, vilipendiada por esses fanáticos fascistas, teve o seu slogan adulterado, pois a ordem virou caos e o progresso foi interrompido pela barbárie, o oposto de civilização.
Freud, no seu magistral ensaio sobre “O Mal-Estar na Cultura”, afirma que um país atinge seu mais grau de civilização, quando o protege contras as forças da natureza, o solo é cultivado, a riqueza mineral é extraída para benefícios de todos, os meios de comunicação são amplos, ágeis e dignos de confiança, espaços verdes são criados e conservados na cidade, e convivemos com o asseio e a ordem. Para ele, a sujeira de qualquer espécie é incompatível com a civilização, o que inclui a limpeza do corpo humano. Afirma: “não nos surpreende a ideia de estabelecer o emprego do sabão como um padrão real de civilização”. E complementa: “Isso é igualmente verdadeiro quanto à ordem, uma espécie de compulsão a ser repetida e cujos benefícios são incontestáveis”.
Pois bem, os baderneiros de Brasília quebraram não só as vidraças, móveis e objetos públicos, mas também a ordem institucional democrática, para instaurar a desordem, o caos e a sujeira que provocaram e a que estavam acostumados nos acampamentos em frente aos quartéis. Agora, os detidos reclamam e se dizem em campos de concentração nazistas, sob protesto da comunidade judaica. Mais uma vez, eles não sabem o que dizem, pois desconhecem a história. Devem pagar por seus crimes, pois a justiça, a lei, a ordem, o progresso e a democracia hão de prevalecer em nosso país.