Em 1964, por ocasião da primeira Olimpíada de Tóquio, com oito anos, comecei a me interessar pelo evento, quando fiz um álbum de figurinhas, e me chamou atenção o fato de ter apenas uma brasileira, Aída dos Santos (1937). Era uma mulher negra, a única de um total de 68 atletas, e viajou sem nenhum apoio governamental.
Mesmo sem material adequado, foi a primeira brasileira a chegar a uma final olímpica no salto em altura. Lesionada na etapa classificatória, foi atendida por um médico cubano. Apesar de tudo, ficou em quarto lugar em sua modalidade, a mesma classificação obtida na olimpíada seguinte, na cidade do México, em 1968, quando disputou o pentatlo.
Não sei se Aída dos Santos — mesmo sobrenome da atleta que a precedeu em Roma em 1960, Wanda dos Santos, e de Daiane dos Santos, a nossa ginasta premiada décadas depois — teve muitas seguidoras nos esportes, mas, me lembro, com saudade, de Helena, uma colega no Ginásio Estadual de Guaçuí, também negra, que obteve bons resultados nos jogos escolares e só não se destacou mais porque eram tempos da ditadura militar e auxiliar atletas pobres não era prioridade daquele regime.
A primeira participação do Brasil em Olimpíadas foi em Antuérpia, na Bélgica, sem nenhuma mulher, em 1920. A primeira brasileira a competir foi a pioneira da natação Maria Lemke, na Olimpíada de Los Angeles, em 1932. Da Olimpíada de Berlim, em 1936, à de Montreal, 40 anos depois, apenas 39 brasileiras participaram das olimpíadas, sem nenhuma medalha obtida.
A participação das mulheres aumentou a partir de Moscou, em 1980, quando o vôlei começou a sua ascendente carreira, modalidade que trouxe as primeiras medalhas para as atletas brasileiras, a partir de 1996, em Atlanta, tanto na quadra quanto na praia; a primeira medalha individual só veio com Maurren Maggi, no salto em distância, em Pequim, em 2008.
A partir de 2004, com a criação da Bolsa-Atleta, no primeiro governo Lula, aumentou a participação de atletas brasileiros nas olimpíadas, com o aumento ascendente do número de mulheres. Isso fez com que da atual delegação brasileira em Paris, 276 atletas, 153 são mulheres, percentual de 55%, pela primeira vez na história.
E ainda é das mulheres o maior número de medalhas auferidas. No dia em que redijo este texto, três dias antes de encerrar as Olimpíadas, a maioria das medalhas dos atletas brasileiros era das mulheres. E não por acaso, a maior parte foi ganha por mulheres negras, que só concorreram por serem patrocinadas pelo governo brasileiro. Sem essa participação essencial, seria impossível a essas heroínas se prepararem durante quatro anos, para participar de uma competição de nível internacional.
Embora o Brasil fique entre os vinte primeiros classificados, nas últimas olimpíadas, sua participação poderia ser melhor, mas, para ficar entre os dez primeiros, já que essa é a sua posição dentre as maiores economias do planeta, seria necessário maior investimento nos esportes e na educação.
Não por acaso, Coreia do Sul e Austrália estão à frente do Brasil não só no número de medalhas, mas em todos os rankings sociais, educacionais e tecnológicos. China e Estados Unidos disputaram o primeiro lugar, em quase todos os esportes, formando atletas com modelos diferentes. Nos Estados Unidos, são as universidades privadas os principais celeiros de atletas; na China, o estado investe maciçamente naqueles que se destacam desde a educação básica. Mesmo em esportes em que nunca se destacou, como natação e atletismo, a China obteve excelentes resultados.
Beatriz Souza e Rebeca Andrade, nossas atletas de ouro, têm bolsa-atleta e treinam em clubes, Pinheiros, em SP, e Flamengo, no RJ, respectivamente. Ambas sabem que não teriam chegado aonde chegaram sem muito treino, esforço, conhecimento e equilíbrio emocional.
Aída Santos se formou em Educação Física, Geografia e Pedagogia, com toda dificuldade de uma mulher pobre, numa época muito mais difícil que a atual, e se tornou professora universitária. Beatriz Souza (1998), nossa judoca campeã, filha de militar, também é sargento do exército e empresária de roupas plus size. Rebeca Andrade (1999), nossa atual rainha da ginástica, é estudante universitária de Psicologia. Após superarem todas as barreiras no caminho de uma mulher negra e pobre, no Brasil, elas sabem que a vida de atleta é curta, a fama, passageira, e o verdadeiro empoderamento feminino se obtém pelo conhecimento e pela educação.