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Olimpíadas de Paris

Rebeca Andrade e Bia Souza: ouro reflete vitória individual contra obstáculos

Elas superaram barreiras inimagináveis para um homem e para pessoas brancas e com condições sociais e econômicas privilegiadas

Publicado em 06 de Agosto de 2024 às 01:20

Públicado em 

06 ago 2024 às 01:20
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Para além dos merecidos ouros nas Olimpíadas de Paris, o Brasil traz também outros destaques que precisam ser considerados nesse momento de comemoração. Nossas duas atletas, Beatriz Souza Rebeca Andrade,  que hoje celebramos com alegria e que nos enchem de orgulho, são frutos de políticas públicas de incentivo ao esporte e isso precisa ser objeto de reflexão.
A vitória em uma olimpíada é resultado de um esforço coletivo de pessoas que compõem de forma orgânica e sistemática uma equipe representada na vitória de um só atleta. Há muitos profissionais envolvidos em uma dinâmica estratégica de treinos diários, abrindo mão de muitas regalias pessoais e condições naturais de existência, às quais todos temos direitos.
Na perspectiva individual, por óbvio não é uma questão meramente de dedicação cotidiana a um treinamento que todos sabemos, ou imaginamos, duro e sofrido, que mantém os atletas de alta performance isolados de seus familiares, confinados em centros de treinamento, muitas vezes em outros países, distantes de tudo e de todos.
Olimpíadas de Paris
Rebeca Andrade e Beatriz Souza no pódio Crédito: Alexandre Loureiro / COB
Há muitos outros elementos de natureza objetiva e subjetiva envolvidos em uma vitória dessa magnitude, que, na maior parte das vezes são desconhecidos da maioria dos que vibram com esse tipo de resultado.
No caso de Rebeca Andrade e Bia Souza, o ouro reflete também uma vitória individual de duas mulheres que superaram todos os obstáculos que se interpõem de forma vigorosa na vida de pessoas negras, pobres e do sexo feminino. Elas superaram barreiras inimagináveis para um homem e para pessoas brancas e com condições sociais e econômicas privilegiadas.
Elas foram forjadas no fogo do preconceito, da exclusão social, da invisibilidade, do desprezo pelo pobre, pelo negro e pela mulher. Bia Souza, de modo ainda mais acentuado, pelo interdito da obesidade que a tantos faz sofrer e recolher-se.
As duas superaram a origem simples e dolorosa e vivenciaram com coragem e determinação o processo de apagamento e silenciamento que se impôs ao pertencimento a grupos inseridos nessas classificações relacionadas à interseccionalidade de raça, classe e gênero.
Não há como negar. A vitória, a visibilidade, o destaque, o dinheiro e o glamour que alcançaram não apagam a história de exclusão, ocultamento e privações que lhes foi imposta pelo racismo, classismo e machismo estrutural no qual estamos todos envolvidos.
Políticas públicas de apoio e incentivo ao esporte, tão criticadas e desvalorizadas por tantos políticos, gestores e pela própria sociedade, precisam ser destacadas nesse momento histórico e de euforia que estamos vivendo. Além de valorizar o esforço pessoal das atletas, o que é inegavelmente extraordinário, é preciso repetir que 80% dos atletas que estão em Paris talvez não chegassem lá sem o apoio do Programa Bolsa Atleta, criado em 2004, no primeiro governo do presidente Lula.
Antes de alcançar sucesso e medalhas importantes, é quase nula a possibilidade de um atleta conseguir patrocínio. As grandes empresas só querem investir em “causas ganhas”, em retorno certo, visibilidade que chega às grandes mídias.
É o Estado o fomentador por excelência de talentos, o descobridor de Bias e de Rebecas. É o Estado o responsável por quebrar as barreiras que se interpõem aos pertencentes de grupos minorizados e vulnerabilizados. É o Estado que precisa ser o alimentador de esperança e o concretizador do futuro.
É o Estado que deve se colocar no lugar daquele que nega e que rechaça as desigualdades, daquele que afirma a dignidade e a justiça, daquele que protagoniza projetos de amanhãs comprometidos com a igualdade e com a liberdade de se exercer a profissão que desejarmos, independentemente das restrições que nos são impostas por uma cultura excludente, discriminatória e perversa com a nossa condição de humanos.
A vitória de Bia e de Rebeca é a vitória dos excluídos, dos despossuídos, dos desprovidos das condições básicas de existência que nos permitem viver em uma sociedade de livres e iguais como afirma nossa Constituição Federal.
O ouro é de Rebeca e de Bia. Elas devem comemorar. Elas podem comemorar integralmente. Nós também podemos festejar a vitória delas e de suas equipes, mas nossa comemoração, por adesão, ao projeto vitorioso e virtuoso delas, deve estar condicionada ao compromisso assumido de participarmos da vitória na medida em que compartilhamos e damos nossa cota de esforço na construção da conquista.
É um ouro que precisa iluminar nosso compromisso político e pessoal de solidariedade e igualdade. Somos todos atores de políticas públicas, seja na condição de cidadãos que exercem sua cidadania com responsabilidade e com respeito a coisas públicas, seja na medida em que cobramos políticas públicas implicadas em projetos de igualdade e dignidade para todos em igual medida.
Que a alegria da medalha de ouro possa se transformar em oportunidades de reflexão acerca daquilo que valorizamos na política e na vida e daquilo no que investimos nossos sonhos de construção de uma sociedade que tenha o bem viver para todos compartilhado como projeto de nação livre e soberana.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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