Estou monotemática. Nunca uma Olimpíada caiu tão bem. Foi um duplo twist carpado à la Daiane dos Santos na minha pauta interna. O esporte transformou essas minhas duas últimas semanas.
Destreinada em assistir TV, evoluí rapidamente. Em poucos dias, saí da quase alienação para a imersão esportiva. Brasileiro não passará aperto se o mundo demandar coach. Aqui somos todos treinadores, do futebol ao surfe, do vôlei ao judô.
Adoramos palpitar. Vamos na intuição. Depois de assistir a duas provas de skate, eu já era capaz de opinar sobre flips e hardflips com aquela profundidade que o entusiasmo disfarça.
Vi um pouco de muitas modalidades, conheci histórias inspiradoras, ganhei novos ídolos e, definitivamente, assisti ao nascimento de uma lenda: Rebeca Andrade.
É difícil não se encantar pela maior medalhista olímpica da história brasileira. Ela zerou o game. Escreveu seu nome na parede onde Senna, Pelé, Guga e Maria Esther Bueno assinaram. Deixou seu registro com leveza inspiradora e uma história de grandes desafios. Todo mundo quer saber o segredo da plenitude da Rebeca.
Talvez o segredo dela seja não ter segredos. Ser transparente. Falar de si e dos outros com responsabilidade e respeito. Quando Simone Biles desistiu da Olimpíada anterior, para cuidar da saúde mental, Rebeca foi uma das primeiras a se posicionar em defesa da atleta e disse “Nós não somos robôs”.
E não somos mesmo. Às vezes é nosso corpo que pede pausa, em outras é a mente que está sobrecarregada, ou o espírito que parece vazio. Podemos querer manter o coração frio quando a cabeça esquenta e vice-versa, mas é impossível. O humano é surpreendente exatamente pelo inexato que traz em si. E não há por que não tirar proveito disso. Somos três em um, integrados, indivisíveis. Nossa força é a não fragmentação.
Quando Rebeca diz que aprendeu a “sentir” os aparelhos e a contar os passos para competir, sem lentes de contato de correção da miopia e do astigmatismo, pareceu um pequeno detalhe. Mas não era. Ela sabia que as lentes a deixariam preocupada com o pó de magnésio que poderia cair nos seus olhos, Com um pouco mais de atenção, dá para entender o que é autoconhecimento e autoamor. É preciso mapear o que nos fragiliza e enfrentar, ainda que seja evitando.
Nossa humanidade é gostosa, inspira e apaixona. Rebeca construiu sua força entendendo e aceitando seus limites. Sua mente, bem treinada, não permite mais que ela coloque seu corpo em risco sem necessidade. Ela encarna o espírito do esporte como atleta de alta performance íntegra. Não é ingênua, não entrega o seu ouro, mas sabe com quem compete. Nas palavras dela: “Não é sobre vencer a Simone Biles, é sobre vencer a mim mesma, a briga está na minha cabeça, no meu corpo. A gente se incentiva, quer dar o máximo, a briga é sempre comigo mesmo”.
Em um mundo adoecido por questões diversas relacionadas à violência física e mental, ao equívoco da polarização e da intolerância generalizada, o esporte é uma alternativa de cura. Uma pista. Talvez uma pista para correr sem tênis, descalço, integrado à terra. Sem cotoveladas e empurrões, com fair play - uma expressão universal criada nas Olimpíadas de 1886 que traduz o jogo limpo e o respeito ao adversário no espírito esportivo. Essa expressão, caríssima para a humanidade, foi eternizada em uma foto de Rebeca, Simone Biles e Jordan Chiles.
É preciso muita grandeza de espírito para prestar reverência a quem te supera em algum feito. Isso não deveria precisar de explicação. Só aplauso mesmo. As americanas arrasaram na postura. Essa é a imagem do futuro.
Esporte, amor e humildade não têm contraindicação, eu torço para que sejam os elementos dos maiores influenciadores do mundo. Estamos muitíssimo necessitados de bons exemplos. Como disse a atriz e escritora Viola Davis: Rebeca, você é luz.