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Pra que tanta pressa?

A vida perde o sentido se a vivemos com afobação e pressa

Pessoas  só não têm pressa nas redes sociais. Aí ficam horas e horas, perdendo tempo com a vida alheia, com vídeos de bobagens e com mensagens de ódio

Publicado em 29 de Agosto de 2022 às 02:00

Públicado em 

29 ago 2022 às 02:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro Francisco Aurelio Ribeiro
Semana passada, parei o carro para entregar uma encomenda no prédio de meu filho, na Praia de Itaparica, olhei pelo retrovisor, olhei para trás, não vi nenhum carro, abri a porta e desci. Um carro em altíssima velocidade freou em cima de mim. Por pouco não morri.
Como se não bastasse, o motorista, de cabelos brancos, me xingou de vários nomes. Fiquei mudo. Estupefato. Com o susto e com a atitude dele. Minha filha passou pelo mesmo susto, dois dias depois. Minha esposa nem mais sai de casa como saía, pois tem medo de ser atropelada ou assaltada. Enfim, a vida não está fácil pra ninguém.
A nossa língua é pródiga em provérbios ou ditos populares que falam da impropriedade da pressa. Eu me lembro de alguns como: “devagar se vai ao longe”; “a pressa é inimiga da perfeição”; “antes tarde em casa do que cedo no cemitério”; “se tem pressa, vai andando”. 
Estes são portugueses: "Quem tem pressa, vai por terra, que por mar pode afogar-se". "Quem à pressa se casa, com vagar se arrepende". "Quanto mais pressas, mais vagares". “A pressa é a mãe do imperfeito” ou “a pressa é a madrinha do arrependido”. “Grande pressa, grande vagar”.
Ditos populares ou provérbios revelam a sabedoria ou o conhecimento do povo sobre a vida e as suas realidades. No entanto, como é difícil ao brasileiro incorporar esse conhecimento, não? Somos muito apressadinhos, queremos tudo a tempo e a hora. Poucos sabem esperar, respeitar uma fila, pois todos têm pressa.
Domingo, estava na fila pra comprar frango pro almoço, todos, pacientemente, esperando a sua vez. Chega um senhor grisalho, cochichou no ouvido do atendente, foi atendido antes de todos e saiu feliz da vida com o seu franguinho, antes de todos que chegaram antes. Pensei em protestar, mas como todos os que estavam à minha frente nada disseram, também me calei e disse aos meus botões: "Estressar para quê?" O mal-educado é um só e, se não aprendeu até hoje, não aprende mais.
Também a literatura é cheia de ensinamentos sobre as inconveniências da pressa em nossa vida. Vejamos algumas frases literárias: “A maior pressa é a que se faz devagar”(J. Simões Lopes Neto, escritor gaúcho). “Nas minhas ocupações de todo dia, vejo que a pressa é quase sempre inimiga da pressa”, Gustavo Capanema, ex-ministro da Educação. “A velocidade é a irmã mais nova do desastre: a mais fina também e a mais esbelta”, Aníbal Machado, escritor.
A pressa mata, no trânsito, no dia a dia, no coração. Precisamos parar para ouvir o silêncio. É necessário diminuir o ritmo para apreciar a paisagem, para ver os filhos crescerem e acompanhar-lhes o desenvolvimento. É preciso recuperar o olhar da criança, que nos chama a atenção ao detalhe da folha, do inseto, da espuma da água. As pessoas estão correndo muito e matando o instante que poderia ser curtido em sua plenitude.
Só não têm pressa nas redes sociais. Aí ficam horas e horas, perdendo tempo com a vida alheia, com vídeos de bobagens, com mensagens de ódio aos que lhe são diferentes. Dia desses, um vigia de carros me disse: "Seu Francisco, duas coisas estão acabando com o mundo". Perguntei-lhe: "Quais são?" E ele: "Drogas e redes sociais". Respondi-lhe: "Posso acrescentar mais uma?" E ele: "Qual?". E eu: "A pressa". Ninguém tem mais tempo para ver, ouvir, sentir o outro. Todos correm por algum motivo e não param para pensar que a vida perde o sentido se a vivemos com afobação.

Francisco Aurelio Ribeiro

Francisco Aurelio Ribeiro Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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