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Conflito

A palavra mais dita é também a menos praticada na Terra Santa

Estive em Israel três vezes, em 1988, 2012 e 2016. Já percorri o país de um extremo a outro, pois possui território equivalente à metade do Espírito Santo

Publicado em 26 de Fevereiro de 2024 às 01:35

Públicado em 

26 fev 2024 às 01:35
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro Francisco Aurelio Ribeiro
A primeira palavra que se aprende, quando se vai a Israel, é "shalom", que significa literalmente “paz”. É um termo bastante utilizado entre os judeus, principalmente, como uma forma de saudação ou de despedida. Em termos de comparação, o shalom pode ser usado da mesma forma que o “olá”, “bom dia” ou “adeus”, por exemplo.
A palavra "shalom" representa um desejo de saúde, harmonia e paz para aquele a quem é dirigido o cumprimento. Com ela, se aprende também que não existe paz, em Israel. Cercado de inimigos por todos os lados, o judeu, naquele país, vive em constante sobressalto, bem diferente do que se vivesse em Nova Yotk, Londres ou São Paulo.
Desde a criação do Estado judeu, Israel vive em guerra com seus vizinhos. A primeira guerra árabe-israelense ocorreu entre maio de 1948 e janeiro de 1949, opondo, de um lado, o recém-criado Estado de Israel e, de outro, alguns países da Liga Árabe, entre os quais Egito, Iraque, Jordânia, Líbano, Síria e Arábia Saudita.
Essa guerra se estendeu por mais um ano, a chamada Guerra da Independência. Desde então, houve três grandes guerras entre Israel e os estados árabes, em 1956, 1967 e 1973. Na Guerra dos Seis Dias, em 1967, Israel ocupou a Faixa de Gaza e o deserto do Sinai, que pertenciam ao Egito, as colinas do Golan (Síria), as fazendas de Shebaa (Líbano), Jerusalém Oriental e a Cisjordânia (Jordânia).
Desde a criação de Israel, em 1948, a Palestina vive uma situação de conflito endêmico, pois uma guerra se iniciou no dia seguinte à criação do Estado judeu. Mais duas guerras ocorreram nas décadas seguintes (Guerra dos 7 dias e Guerra do Yom Kippur), todas vencidas por Israel, com a morte de milhares de palestinos.
Israel é um estado completamente bélico, armado até os dentes pelos EUA, todo cidadão israelense é um soldado pronto a defender seu país, a maioria da população vive armada. O ódio contra os palestinos é recíproco e, a todo instante, há confrontos entre eles, pois estão próximos ou convivem, lado a lado, se odiando.
Estive em Israel três vezes, em 1988, 2012 e 2016. Já percorri o país de um extremo a outro, pois possui território equivalente à metade do Espírito Santo. Presenciei as intifadas, que são pedras jogadas por crianças palestinas aos soldados israelenses; fui a Belém e a Jericó, territórios palestinos, e assisti, no meio dos palestinos, em um telão na Praça da Igreja da Natividade, à frustração do povo palestino, quando a ONU, mais uma vez, negou-lhes a entrada como membro permanente.
Essa guerra entre eles nunca terá fim, enquanto EUA, Israel e a ONU não reconhecerem um Estado palestino independente. Foi essa a resolução aprovada pela ONU, em 1947, em sessão histórica presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha, muito homenageado em Israel.
O que está acontecendo, agora, em Gaza, é genocídio, sim. O governo de extrema-direita de Netanyahu não está matando terroristas do Hamas, que invadiram o território israelense, em outubro passado, mas sim, exterminando mulheres e crianças palestinas, encurraladas em um pequeno território de Rafah.
Os soldados os expulsaram do norte e do centro do país, encurralando-os ao sul, para melhor os exterminar. Cerca de trinta mil já morreram e esse número não vai fechar tão cedo.
Talvez, Bibi, o genocida, como deverá ser conhecido pela história, só ficará satisfeito com a morte de uns cem mil palestinos. A palavra mais dita por eles, "shalom", também é a mais difícil de existir, naquela que é dita, por nós cristãos, de “Terra Santa”.

Francisco Aurelio Ribeiro

Francisco Aurelio Ribeiro Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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