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Fernando Manhães

A nova experiência de consumo mediada por IA: como se destacar?

Se deixarmos a IA operar no piloto automático, a comunicação tenderá a ser eficiente nas métricas, mas genérica na experiência

Publicado em 19 de Junho de 2026 às 03:30

Públicado em 

19 jun 2026 às 03:30
Fernando Manhães

Colunista

Fernando Manhães

A jornada do consumo já não é mais a mesma. O que antes começava em uma barra de busca hoje já acontece por meio de uma conversa direta com a Inteligência Artificial. Ao invés de abrir o navegador, entrar no Google, comparar links, anúncios e reviews, o consumidor simplesmente pergunta: “Qual o melhor celular até 2 mil reais para fotos à noite e bateria que dure o dia todo?”. A relação com a informação sai do formato “lista de resultados” e passa a ser mediada por um assistente que entende contexto, histórico e intenção.


Nesse novo desenho de jornada, aquele funil relativamente previsível, com busca, anúncios, comparadores, sites de varejo, se encurta e se concentra. A IA apresenta opções, aponta um modelo, resume avaliações, cruza preferências, negocia preço e, em muitos casos, conduz a compra em um clique. De uma vitrine ampla, passamos para um “concierge” digital que decide junto ou no lugar do consumidor.


Para o marketing, isso muda o centro de gravidade da disputa. Já não basta aparecer na página de resultados; é preciso conquistar espaço na resposta da IA. E esse espaço não se garante só com mídia paga. 

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A mudança cultural que a IA exige

Depende de dados bem estruturados, reputação construída ao longo do tempo, conteúdo consistente e, principalmente, profissionais capazes de entender como esses modelos funcionam: de onde vêm os dados, como as recomendações são geradas, quais integrações levam da intenção à compra final. Tudo isso, sem perder de vista a experiência do cliente. 


Ao mesmo tempo, vivemos o paradoxo da padronização. Com as mesmas ferramentas generativas nas mãos de todos, tudo começa a ficar parecido: prompts copiados, cores sépia, formatos repetidos, “melhores práticas” replicadas ao infinito. 


Se deixarmos a IA operar no piloto automático, a comunicação tenderá a ser eficiente nas métricas, mas genérica na experiência. E a experiência com a marca é o que constrói relações duradouras e efetivas.  


Por isso, é preciso ficar atento ao risco de transformar marcas em versões intercambiáveis de um mesmo discurso polido, correto e esquecível, que não gera emoção e que não traz autenticidade. 


E, neste ponto, a conexão entre IA e atividade humana torna-se decisiva, incorporando a tecnologia de forma crítica e criativa. Usar modelos generativos para explorar caminhos, mapear territórios e simular respostas de audiência sem abrir mão de algo que a máquina não entrega: visão de marca, leitura de contexto cultural, sensibilidade estética, vivência, posicionamento e propósito. 


Criatividade continua sendo diferencial, mas agora exige outra camada de competência. É preciso saber perguntar melhor, combinar referências, reconhecer quando o resultado está “mais do mesmo” e ter repertório para ir além. 

Inteligência artificial
Inteligência artificial  Shutterstock

Em um cenário em que qualquer um pode gerar um anúncio em segundos, o valor migra para quem sabe transformar esse rascunho em estratégia relevante, em narrativa original, em ponto de vista que se destaca no feed e na conversa mediada por algoritmos.


Esse novo cenário recoloca a capacitação no centro do debate. Não é suficiente “mexer na ferramenta”, é preciso formar profissionais que conectem dados, tecnologia, comportamento e propósito de marca. Gente, não IA, capaz de configurar modelos, interpretar resultados, definir parâmetros éticos e, sobretudo, fazer as perguntas incômodas. 


A IA tende a igualar o acesso a recursos antes exclusivos de grandes players e nesse universo, onde todos transitam, quem realmente se diferencia é o profissional preparado, estrategista, criativo e orientado por dados, capaz de usar o marketing holístico com a IA e não como atalho para produzir mais do mesmo, mas como alavanca para compreender melhor as audiências e criar jornadas de consumo mais  eficiente. Talvez o diferente seja o erro e não o lugar comum.

Fernando Manhães

É publicitário e escreve sobre suas experiência em Portugal, com foco em consumo e sustentabilidade.

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