Em 2018, quando cheguei a Portugal, sempre me chamou atenção os valores democráticos dos portugueses e suas referências ao 25 de Abril. Nesta quinta-feira (25), comemorou-se o dia da restauração da democracia em Portugal. Nessa data, em 1974, há exatamente 50 anos, Portugal colocava um ponto final na ditadura de Salazar. A Ditadura Nacional (1926 - 1933) e o Estado Novo de Salazar (1933 - 1974) foram, conjuntamente, o regime autoritário mais longo de toda Europa Ocidental durante o século XX.
António de Oliveira Salazar foi um ditador que comandou Portugal com poderes absolutistas. Levou o país a um dos piores momentos da vida cotidiana portuguesa. O salazarismo, regime de inspiração fascista, teve eco de outros ditadores da época, como Mussolini na Itália, Franco na Espanha e Hitler na Alemanha. Os impactos foram percebidos diretamente nas artes, literatura e teatro e nos meios de comunicação, por conta da forte censura aplicada.
Uma pesquisa realizada pelos institutos ICS/ISCT, em parceria com o jornal Expresso, a Rede SIC e a Comissão Comemorativa dos 50 anos, o 25 de Abril mostra que os valores da época não só resistem como se reforçaram, mesmo apesar do tempo passado e da polarização política entre direita e esquerda.
Uma pesquisa semelhante a essa foi realizada também em 2004 e outra em 2014. Para 65% dos respondentes o 25 de Abril e a Revolução dos Cravos é a data mais importante da história dos portugueses. E não é para menos. Mesmo para uma parcela significativa que não viveu exatamente o período de ditadura, os mais jovens mostram-se extremamente orgulhos do feito.
A pesquisa evidencia que a transição portuguesa para um regime democrático foi uma conquista e é vista com muito orgulho. Os dados demonstram uma evolução desse orgulho nas respostas das três edições da pesquisa. O percentual evolui de 2004 com 77%, em 2017 para 79% e finalmente em 2024 para 81%. Outro dado relevante é o grau atual de satisfação com a democracia portuguesa: 57% responderam que estão muito ou razoavelmente satisfeitos com o regime democrático português.
Por fim, a pesquisa também dá sinais para entendermos o atual cenário político de Portugal. Com o avanço da extrema direta no país, através do Partido Chega, não parece que o processo democrático tenha sido afetado. Nesses últimos 50 anos alternaram-se no poder socialistas e sociais democratas. É a primeira vez que a extrema direita portuguesa tem um crescimento relevante.
Entretanto, fica o alerta de que a democracia não está em jogo. Há de se levar em consideração, o atraso que Portugal sofreu nas últimas décadas, mesmo aderindo à União Europeia. Que nos próximos 50 anos da Revolução dos Cravos, os portugueses tenham muito mais a comemorar.