Um vídeo que mostra várias pessoas se comportando como verdadeiros zumbis viralizou nas redes sociais e na imprensa alguns dias atrás. As imagens, passadas na Filadélfia, chocam até mesmo os apaixonados por filmes de terror. Homens e mulheres aparecem completamente entregues aos efeitos da combinação de drogas que tem causado uma enxurrada de mortes nos Estados Unidos.
Durante o período em que servi como adido policial federal naquele país, tive oportunidade de ver de perto grande número de dependentes químicos nas ruas da Filadélfia, mas nada que se compare às imagens viralizadas recentemente. Sob o efeito das drogas, seres humanos estão, efetivamente, se comportando como mortos-vivos sem alma, verdadeiros animais irracionais.
Segundo divulgado, aquelas pessoas estão misturando xilazina (medicamento de uso veterinário utilizado para sedar cavalos, gado e outros mamíferos) e fentanil (droga feita a partir do ópio e que é 50 vezes mais forte que a heroína). A mistura mortífera está sendo popularmente conhecida como Tranq e tem provocado efeitos catastróficos do ponto de vista da saúde e da segurança pública. Segundo Rahul Gupta, diretor do escritório da Casa Branca, “essa é a primeira vez na história que uma substância foi designada como uma ameaça emergente".
Em que pese o vídeo viralizado mostrar imagens da Filadélfia, a agência policial americana responsável pela repressão ao tráfico de drogas, DEA (Drugs Enforcement Administration), já realizou apreensão do Tranq ou droga zumbi em 48 dos 50 Estados do país.
Do ponto de vista da saúde, os efeitos do uso dessas drogas são os piores possíveis. Além do gigantesco número de mortes por overdose, os usuários que permanecem vivos têm sofrido com feridas que não cicatrizam, que apodrecem e que podem levar a amputações dos membros. Além disso, também são comuns infecções generalizadas e todos os demais tipos de enfermidades decorrentes do uso das drogas.
Do ponto de vista da segurança pública, as consequências também são catastróficas. Conforme já se descobriu, o fentanil tem sido fabricado e vendido principalmente pelos cartéis mexicanos (em especial o de Sinaloa e o de Jalisco Nueva Generación), o que tem alimentado uma cadeia infinita de crimes extremamente violentos e cruéis.
Há alguns meses cheguei a escrever sobre os riscos do fentanil para nosso país. Na ocasião, fiz uma analogia sobre a epidemia de crack que assolou os Estados Unidos nas décadas de 80 e 90 e que, atualmente, tem sido um dos maiores desafios da gestão pública no Brasil. O tráfico de drogas e a proliferação das cracolândias têm sido uma ferida permanentemente aberta na gestão dos grandes centros urbanos.
Ao que tudo indica, os problemas tendem a se agravar. Não há nada que aponte para um arrefecimento no uso do crack no Brasil. Aliás, permanecemos ocupando o segundo lugar entre os países que mais consomem cocaína no mundo. Como se não bastasse, não é preciso ser nenhum vidente para prever que, muito em breve, também teremos que lidar com a entrada do fentanil e de suas várias combinações em nosso país.
No Espírito Santo, a Polícia Civil já registra três apreensões de fentanil num período de seis meses. O que pode parecer pouco, se comparado ao volume de outras drogas apreendidas, chama a atenção pelo potencial de crescimento, quando analisamos o fenômeno nos Estados Unidos. Em poucos anos a disseminação do fentanil se tornou, provavelmente, o maior desafio na área da saúde americana.
No Brasil, a tendência é que também vivenciemos esse fenômeno. É muito provável que em poucos anos o fentanil esteja circulando em nossas ruas, provocando os mesmos problemas vividos atualmente pelos americanos. É fundamental que estejamos preparados. Estudar os erros e acertos de nossos vizinhos norte-americanos e fazer nossa própria correção da rota pode ser a única saída para que não haja, também por aqui, verdadeiras comunidades de zumbis.