No último dia 18 de setembro, tive a oportunidade de estar em Nova York, na sede das Nações Unidas, para participar como palestrante do SDGs in Brazil, evento promovido pelo Pacto Global da ONU – Rede Brasil.
O encontro reuniu representantes do setor privado, do poder público, organismos internacionais e especialistas para discutir desafios e soluções relacionados ao desenvolvimento sustentável e ao papel das empresas na construção de uma economia mais íntegra, responsável e sustentável. A realização do evento em Nova York, às vésperas da Assembleia-Geral das Nações Unidas, conferiu ao encontro um significado especial.
Para mim, foi particularmente impactante poder falar sobre um tema que considero cada vez mais urgente diante de um público extremamente qualificado e em um ambiente tão simbólico como a sede da ONU.
O tema que levei ao debate foi a influência do crime organizado nas cadeias de valor das empresas. É forçoso reconhecer que o crime organizado já não deve ser compreendido apenas como um problema de segurança pública.
Em diferentes partes do mundo, organizações criminosas procuram se inserir na economia formal, utilizando empresas, cadeias de fornecimento, relações comerciais e estruturas financeiras legítimas para ampliar seus negócios, lavar dinheiro e reduzir os riscos de suas atividades ilícitas.
Há, também, um aspecto particularmente preocupante: uma empresa pode ser utilizada pelo crime organizado sem que seus próprios gestores tenham conhecimento disso.
As consequências podem ser graves: perdas financeiras, danos reputacionais, sanções, perda de contratos e, em situações mais graves, a utilização da própria empresa como instrumento para atividades criminosas.
Diante desse cenário, tive oportunidade de compartilhar, de forma bem resumida, o que, na minha visão, são ações recomendáveis a todo e qualquer gestor: primeiramente, conhecer profundamente o próprio negócio e seus riscos.
Isso significa ir além do tradicional Know Your Customer. É preciso conhecer o ambiente de negócios, clientes, fornecedores, parceiros, intermediários, empregados, beneficiários efetivos e, sempre que necessário, as relações que existem entre esses diferentes atores.
É aí que a due diligence assume um papel fundamental. Ela não deve ser tratada como uma obrigação burocrática ou como um simples procedimento de compliance, mas como uma ferramenta de gestão de riscos capaz de fornecer informações para que os gestores tomem decisões mais adequadas.
Outro elemento essencial é a cultura de integridade. Nesse caso, o tone from the top precisa ser efetivo e alcançar toda a organização indistintamente: todos devem compreender que integridade não é negociável e que pequenos desvios não podem ser tolerados.
Por fim, não precisamos reinventar a roda. Existem experiências bem-sucedidas, padrões internacionais e ferramentas disponíveis que podem ser adaptados à realidade de cada empresa.
O objetivo não é eliminar todos os riscos (o que seria efetivamente impossível), mas conhecê-los, identificar vulnerabilidades e criar mecanismos para evitar que a organização seja infiltrada ou utilizada pelo crime organizado — inclusive sem que seus gestores tenham conhecimento disso.
Combater o crime organizado não deve ser visto como responsabilidade exclusiva das forças de segurança ou do Estado. O setor privado também tem um papel fundamental que, a cada dia, se torna mais relevante.
Uma economia íntegra, transparente e livre da influência do crime organizado é condição essencial para um ambiente de negócios saudável, para a geração de oportunidades e, sobretudo, para um desenvolvimento econômico que se traduza em desenvolvimento social.