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Na ONU, Lula critica ação dos EUA na região: 'Brasil não cabe no quintal de ninguém'

Lula falou sobre eleições e fez referências às cobranças dos EUA para combate ao crime organizado no Brasil, dizendo que seu país não vai "terceirizar a responsabilidade" de defender suas fronteiras

Publicado em 22 de Setembro de 2026 às 13:34

BBC News Brasil

Publicado em 

22 set 2026 às 13:34
Imagem BBC Brasil
Crédito: Reuters

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou o púlpito da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, para criticar a interferência dos Estados Unidos na América Latina.

Esta foi a 11ª vez que Lula discursou na Assembleia. Ele foi o primeiro a falar, em uma tradição desde 1955.

"Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável. Sobretudo num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas", disse o presidente brasileiro.

"O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomentem o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para maior integração entre vizinhos."

Lula fez referências às cobranças dos EUA para combate ao crime organizado no Brasil e afirmou que seu país não vai "terceirizar a responsabilidade" de defender suas fronteiras e de "garantir à população o direito de viver sem medo".

"Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas", disse o presidente brasileiro, "precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado".

Segundo Lula, esse é o ponto central da proposta sobre combate ao crime enviada pelo seu governo ao presidente norte-americano Donald Trump.

O presidente brasileiro ressaltou ainda que o país está preparado para o desafio de enfrentar as organizações criminosas e listou algumas ações que seu governo realizou no combate às facções.

"Batemos recorde de apreensão de drogas, de bens e recursos ilícitos. Estamos enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os magnatas do crime. A lei antifacção, que acabamos de aprovar, impõe ao crime organizado penas superiores às previstas para o terrorismo. Crime organizado e corrupção andam juntos. O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer. Ninguém está acima da lei."

"O Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado. Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas comunidades. Trabalhadores são roubados, mães perdem seus filhos, policiais não voltaram para as suas casas. As pessoas estão cansadas da violência", disse.

Imagem BBC Brasil
Crédito: Reuters

A duas semanas das eleições gerais no Brasil, em 4 de outubro, o petista também falou sobre o pleito e disse que a votação não servirá apenas para eleger o presidente, governadores estaduais e representantes do Poder Legislativo, mas para "decidir entre democracia e negacionismo".

Segundo o presidente brasileiro, a eleição vai definir "se o Brasil vai avançar rumo a um futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de exclusão".

No agregador de pesquisas para presidente da BBC News Brasil, o senador Flávio Bolsonaro (PL) voltou a aparecer à frente de Lula no 2º turno nesta semana.

Lula ressaltou que o pleito é "transparente e competitivo" e que todos os candidatos "desfrutam da mais ampla liberdade de expressão".

O presidente afirmou, porém, que "interesses estrangeiros contrários ao país" têm abusado dessa liberdade.

"Não subestimamos o desafio da rede de desinformação que pretende desvirtuar o debate público durante a campanha. Mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto, sob olhar atento de cidadania plural e de uma imprensa livre", disse.

Outro ponto do discurso de Lula foi a soberania do Brasil, tema que ele explorou durante o tarifaço dos Estados Unidos contra o país e também tem explorado em sua campanha eleitoral.

"Não permitiremos que inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará deste caminho".

Lula também usou seu discurso para falar sobre resultados da economia brasileira. "Apesar do tarifaço contra nossa economia, este ano bateremos novo recorde de exportações", disse.

Lula critica Netanyahu e diz que guerra é a 'falência total da política'

Lula iniciou sua fala afirmando que este é o momento mais crítico das Nações Unidas desde 2003, quando se tornou presidente pela primeira vez.

Segundo o presidente brasileiro, o Conselho de Segurança, seus membros e o mundo estão falhando em proteger a população das guerras.

"A ONU está falhando em uma de suas missões mais elevadas. A de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis, os que não têm exército nem arsenais nunca foi tão pequena. Somos todos reféns do imobilismo de um conselho de segurança que não cumpre seu papel", disse Lula.

Lula foi aplaudido ao elogiar a resolução histórica adotada pela Assembleia Geral da ONU em março de 2026, que reconhece o tráfico transatlântico de africanos escravizados como "o crime mais grave contra a humanidade".

"Essa assembleia corrigiu recentemente distorções históricas. Reconheceu o tráfico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade", disse, sendo aplaudido.

"Aprovou a representação mais precisa do mapa-múndi. Agora, deve se debruçar sobre temas determinantes para o futuro da humanidade. Somos chamados a optar entre o multilateralismo e o unilateralismo. Democracia e extremismo. Soberania ou subordinação. Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de objetivos", disse.

Também no início de seu discurso, o presidente falou também sobre a guerra em Gaza, o "genocídio praticado pelo governo Netanyahu" e "os atos terroristas do Hamas".

"Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixado pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas", criticou o presidente brasileiro.

O presidente brasileiro disse ainda que é um representante de uma nação que defende a paz e a liberdade. Segundo Lula, a guerra é a "falência total da política".

"O ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista. Tensões geopolíticas ameaçam transformar confrontos regionais em uma conflagração de proporções globais. Os que detêm as rédeas das decisões cruciais devem atuar com responsabilidade e sentido de urgência. Os líderes dos países que integram o Conselho de Segurança precisam se reunir", afirmou.

"As concessões à lei do mais forte já passaram dos limites", diz Lula.

O presidente encerrou seu pronunciamento com "que Deus nos abençoe a todos e muito obrigado".

Lula e Donald Trump não se encontraram nos bastidores da ONU

Lula e Donald Trump não se encontraram nos bastidores da Assembleia Geral da ONU, segundo fontes próximas ao presidente brasileiro.

Havia a expectativa de que os dois líderes se cruzassem na saída de Lula do plenário da ONU, quando Trump estaria entrando para seu próprio discurso. Foi nesse momento que eles se encontraram rapidamente em 2025.

Naquele momento, o governo brasileiro tentava uma saída diplomática para o primeiro tarifaço aplicado por Donald Trump ao país. Também se discutia a aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes, sob a acusação de o ministro do STF ter agido politicamente na condenação de Jair Bolsonaro.

O episódio foi um ponto de virada na relação entre os dois chefes de Estado, que passaram a dialogar e até tiveram um encontro presencial, que resultou na retirada de tarifas e sanções ao Brasil.

Mas a relação entre os presidentes voltou a desandar nos últimos meses.

O momento atual é particularmente delicado: a duas semanas das eleições brasileiras, com uma disputa comercial ainda sem solução e sob o risco de uma nova rodada de sanções do governo Donald Trump contra autoridades brasileiras.

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