Na vida de pesquisadora, fui aprendendo a ouvir os números, a descobrir o que os dados me revelavam e a escrever sobre as histórias que eles me contavam. Durante essa pandemia, conheci tantas histórias que precisarei de tempo até conseguir recontá-las.
Não são histórias de vastos impérios, de terras distantes, ou de heróis enfrentando, como Hércules, os 12 trabalhos. Esses últimos pelo menos tinham um fim. Algumas dessas histórias poderiam ser as histórias de qualquer um e de todos nós. Das nossas agonias frente ao desconhecido e à dor. As pessoas com as quais compartilhei essa pandemia enfrentam em suas vidas tantas agruras, que em suas aflições eu conheci algumas certezas, ainda que provisórias.
No distanciamento social fomos obrigados a conviver intensamente com nós mesmos. Esse foi o desafio principal. Estávamos acostumados com o movimento do mundo externo e até os sons do nosso local de refúgio começaram a nos causar estranhezas. Havia um silêncio diferente, as ruas já não eram o barulho costumeiro, a vizinhança de repente se recolheu, ninguém via mais ninguém. Só havia solidão e o mundo era ausência.
Depois, a nossa percepção do outro ficou desfocada, ou em alguns momentos, com hiperfoco. Repentinamente, o vírus nos obrigou a conviver com essa instituição secular chamada família. Para alguns, essa intimidade foi um martírio, para os demais, um bálsamo. Perdemos o hábito de compartilhar todas as refeições e confabular questões amenas, ou conversas no campo da existência. Subitamente éramos nós e os nossos outros. O escudo do trabalho já não estava lá para nos proteger e fomos obrigados a dividir os espaços da casa e do trabalho, que entrou na nossa vida privada.
NÉVOA DE INVISIBILIDADE
Por fim, reconhecemos a existência de outros que são mais outros que os nossos outros. Muitas pessoas da nossa coexistência no trabalho ou em nossas residências não têm carro, não têm internet nem computador, utilizam transporte público e muitas não têm nem sequer dinheiro para comprar insumos importantes para se protegerem dessa pandemia. Esses são os outros dos outros. Estão mais afastados do nosso círculo e não conseguimos, portanto, enxergar essas pessoas que circulam e vivem em condições diferente da nossa. Vivem em uma névoa de invisibilidade e, por mais que olhássemos, não conseguíamos enxergá-los.
Entre nós, nossos outros, e os outros de outros, as névoas foram se dissipando. Para alguns de nós, enfrentar esse olhar interno ou externo já apresentava desafios e angústias. Pessoas que convivem com a depressão e com outros transtornos psíquicos, por exemplo, já travavam dolorosas batalhas internas, muito antes de ouvirmos falar em um novo vírus. Esse balanço da vida, necessário muitas vezes, nos foi imposto pelas circunstâncias. Neste primeiro setembro em meio à pandemia, mês de prevenção ao suicídio, olhar e enxergar a nós mesmos e aos outros, sejam eles os nossos ou de outros, tem se mostrado um ato de solidariedade.
Estar longe e ao mesmo tempo se fazer presente em vidas que tocam, ou não, diretamente a nossa, vai se desvelando como divisor entre os que acreditam que um olhar atento, uma palavra de cuidado e uma ação no momento oportuno podem, neste momento de dor, ser decisivo. Aos que já enfrentavam as dores da alma, não hesite em pedir ajuda, há um outro mundo possível, agora, no pós-pandemia e sempre.