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Biologia

Nossos destinos estão conectados: a pandemia e o salto de espécies

O fato de alguém não ter acesso à água tratada no deserto de Danakil pode, em algum momento, criar uma mutação em uma bactéria. Ou as condições sanitárias em mercados asiáticos podem propiciar uma mutação em algum vírus

Publicado em 06 de Agosto de 2020 às 06:00

Públicado em 

06 ago 2020 às 06:00
Ethel Maciel

Colunista

Ethel Maciel

Coronavírus
E se aquele morcego específico, com aquela mutação específica do vírus, não tivesse sido capturado? Crédito: Freepik
Escrevo essa coluna em um sábado da pandemia. Antigamente, no tempo anterior ao caos, os sábados tinha um sabor de expectativa. Ao amanhecer já fazíamos planos para os acontecimentos vindouros. Mas acordo em um sábado de pandemia e os planos se repetem, em uma rotina já sem grandes novidades.
Mas neste sábado fiz um exercício diferente, pensei naquele famoso lugar do tempo, “que seria se não tivesse sido”. E se não tivéssemos invadido as florestas e capturado animais? E se as mutações não fossem capazes de fazer o chamado "salto de espécies", aquelas alterações que permitem, a um vírus típico de animais, capaz de atacar o ser humano? E se aquele morcego específico, com aquela mutação específica do vírus, não tivesse sido capturado? Se ao menos uma dessas ações tivessem sido diferentes, onde estaríamos?
Mas a história nos mostra que o “se”, essa condicional no passado, pode mudar o presente e o futuro de um modo avassalador. Somos confrontados por esse passado que nos mostra que invadimos as florestas, desrespeitamos a natureza, capturamos os animais e permitimos o salto de espécies. E neste tempo presente, somos todos cúmplices do passado e fadados ao pagamento dos equívocos históricos.
Essa pandemia nos ensina que nossos destinos estão conectados, não apenas de forma virtual, onde o compartilhamento de nossas informações já virou realidade, mas conectados em uma casa comum. Os fatos ocorridos em um lugar distante no mundo podem mudar nossas vidas para sempre. Isso nos remete ao pensamento de como estamos vulneráveis em um mundo cada vez mais desigual.
O fato de alguém não ter acesso à água tratada no deserto de Danakil pode, em algum momento, criar uma mutação em uma bactéria. Ou as condições sanitárias em mercados asiáticos podem propiciar uma mutação em algum vírus, ou em algum lugar no mundo, ou mesmo aqui pertinho, nas florestas da Amazônia, algum vírus ou bactéria podem fazer o salto de espécies e mudar nossos destinos para sempre.

O CAMINHO DO VÍRUS ZIKA

A pandemia mais recente que enfrentamos foi a do vírus zika. Descoberto em Uganda, na África, em 1947, e até 2013 havia poucos relatos de infecções em seres humanos.
Mas o tempo favorece esses seres milenares, e o salto de espécies cria seus próprios caminhos. A introdução do vírus zika nas Américas ocorreu entre 2013 e 2014, atingindo grande parte da população mundial. O início da pandemia aqui no Brasil ocorreu no Nordeste brasileiro em 2015, por uma mutação derivada da linhagem asiática, tendo como consequências cronológicas o surto de microcefalias, a declaração de emergência em saúde pública no Brasil e o reconhecimento do vírus zika como uma emergência internacional pela Organização Mundial de Saúde.
De lá para cá, diversas famílias foram transformadas para sempre. Testemunhamos, atônitos, as mães abandonadas com suas crianças, as dificuldades de acesso aos serviços especializados e a tristeza de não poder dar mais aos filhos, com sequelas permanentes causadas pelo vírus e negligenciadas pelo Estado. A pandemia acabou, mas o tempo e a dor de diversas famílias perduram e atravessam os anos. As pandemias sempre deixam histórias de dor e sofrimento, e seus rastros nos perseguem por gerações.

A LEMBRANÇA DA AIDS

Mas estou em um sábado de pandemia e reflito: o que aprendemos? Lembro que quando decidi me dedicar ao estudo da epidemiologia, a pandemia de Aids chegava ao Brasil e modificava a vida de muitas famílias. Ela chegou nas classes mais abastadas, dizimou milhares e se instalou no berço das classes menos favorecidas.
Na pobreza, com poucos recursos e escassos conhecimentos sobre formas de prevenção, o vírus ceifou e continua ceifando milhares de pessoas nas periferias do Brasil. Com a pauperização da pandemia, sem medicamentos e sem vacinas, as falsas promessas de cura já não eram novidades por aqui. A pandemia de Aids mudou nossa vida e até o momento, sem vacinas, temos que continuar as medidas de prevenção, mesmo que a ciência já tenha alcançado medicamentos eficazes e esperança de vida para muitas pessoas ao redor do mundo.
A pergunta que me toma de assalto: em que momento nos acostumamos com os números? Qual o tempo necessário para que as mortes já não nos sufoquem de medo à noite? Em que tempo acreditamos na ilusão de termos vencido os vírus e bactérias? Não tenho respostas e apreendo do passado mais dúvidas que certezas.
Termino minhas reflexões do sábado impregnada, porém de uma certeza: as pandemias terminam com um decreto. Os microrganismos causadores desses males, por sua vez, continuam entre nós causando, muitas mortes. Permaneçamos atentos!

Ethel Maciel

É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

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