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Distanciamento social

Carta aos bravos amigos nestes tempos de pandemia

Ao convidá-lo agora para este momento de reflexão, sei que está perto da exaustão. A pandemia nos dá um tempo, mas é um tempo estranho

Publicado em 23 de Julho de 2020 às 06:00

Públicado em 

23 jul 2020 às 06:00
Ethel Maciel

Colunista

Ethel Maciel

Pandemia
Mulher de máscara cheira uma flor durante a quarentena Crédito: Pixabay
Comecei muitas vezes esta carta, pois queria dizer a você muitas coisas e as palavras já não vinham na sequência que eu esperava. A pandemia nos tira muito, nos tira, por certo, o prazer de estarmos juntos. De trocar palavras tolas e contar histórias sem sentido. Passamos tantos momentos juntos e agora afastados pela pandemia, venho falar do meu afeto.
Sei de tudo que você passou, todos os convites que negou, todas as dúvidas que perpassaram seus pensamentos. Fecho os olhos e vejo as vezes que trocou o canal para ouvir outras coisas que não fossem: mortes, incertezas, curva epidêmica, medicamentos não comprovados e possibilidade de vacina. A essa última, confesso que posso ver você se deter por mais um tempo.
Vejo também sua hesitação em prosseguir neste esforço para impedir o vírus. Há um cansaço em sua voz, há uma indecisão em seu olhar. Sei que é muito tempo para pedir que siga tentando. Aprendemos, no entanto, com os horrores da morte, perdendo amigos e pessoas queridas, que a única forma de prosseguirmos é seguir tentando.
E seguimos. Vamos mostrando como pensamos, dizendo de nossas esperanças e de como, ao produzir ciência, esperamos melhorar o mundo. Já não estamos sozinhas. Estamos por tanto tempo ensinando no caminho que agora vemos os frutos do trabalho germinar em outras esperanças.
Hoje li uma frase que me fez recordar de você. Estou relendo livros que gosto, hábito que passei a cultivar durante a pandemia. Reli Clarice (Lispector). Acho sempre engraçado como autores vão se tornando nossos amigos, como se estivessem sentados à nossa mesa do jantar. Mas Clarice sempre me surpreende por sua profundidade.
No livro “A Maça no Escuro”, ela nos lembra que “é sempre assim que acontece – quando a gente se revela, os outros começam a nos desconhecer”. Isso porque é sempre mais fácil estarmos com os que pensam como nós, os que gostam do que gostamos e dos que dizem o que gostaríamos de ouvir. Mas nós nunca fomos assim, temos respeito nas nossas diferenças; nos desconhecemos e nos reconhecemos em um mesmo minuto. Não estamos desconfortáveis entre nossas revelações.
Ao convidá-lo agora para esse momento de reflexão, sei que está perto da exaustão. A pandemia nos dá um tempo, mas é um tempo estranho. É um tempo em suspensão, como se a própria existência tivesse feito uma pausa. Esse hiato, lento e moroso, nos informa que estamos vivendo em um intervalo entre encontros. Havemos de nos reencontrar em breve.
Enquanto isso, entenda que seu esforço para cumprir as regras ainda que ninguém estivesse cumprindo, sua valentia em permanecer firme longe de tudo que gosta e sua bravura para compreender a dureza do momento foram fundamentais para que muitas pessoas estivessem agora vivas e sem o vírus. Ainda que ele tivesse circulado por muitos caminhos, você conseguiu quebrar a cadeia de transmissão e bloquear a passagem dele por alguns lugares.
Mesmo que distantes, fomos testemunhas das mortes, denunciamos as ausências de ação, de preocupação, de empatia. Fomos nos desconhecendo de alguns, mas ao mesmo tempo nos reconhecendo em outros. A pandemia há de nos ensinar, de forma dura, eu admito, mas há de nos modificar e de tornar nosso olhar um pouco mais alongado, menos circunscrito e mais fraterno.
Haverá de vir um tempo em que contemplaremos esse momento e nos alegraremos por termos feito a nossa parte, por nós e por muitos que queriam, mas não puderam. Haverá esse tempo, e ele nos mostrará que fomos aqueles que não se calaram diante dos erros, que depusemos a favor das vítimas, que evocamos em suas memórias as injustiças e a dor desse tempo.
Essa hora há de chegar, não se engane e nem se entristeça. Fizemos o que podíamos, não foi ameno, foi luta, mas não deixamos o que tínhamos que fazer diante das dificuldades, não nos intimidamos e não abrimos mão dos princípios da solidariedade. Como em tantas pandemias no passado, essa haverá de provar que na aflição ainda há muitos que, mesmo sendo estranhos, se reconhecem no outro.

Ethel Maciel

É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

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