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Sociedade

Hipocrisia impede a discussão do aborto como questão de saúde pública

Protocolos estão aí para serem avaliados e mudados. Nenhum profissional de saúde possui o direito a decidir sobre a vida de outrem

Publicado em 20 de Agosto de 2020 às 06:00

Públicado em 

20 ago 2020 às 06:00
Ethel Maciel

Colunista

Ethel Maciel

As crianças não sabem e nem conseguem denunciar os abusos
As crianças não sabem e nem conseguem denunciar os abusos Crédito: shutterstock
As pandemias se assemelham a tempos sombrios, de dor e de revelação, com o que há de melhor e de pior na humanidade. O modo como nos comportamos nesses tempos pode repercutir em nossa vida para sempre. Por isso, refletir sobre o momento me parece oportuno. “Deixai toda esperança, ó vós que entrais” é a inscrição na entrada do inferno da Divina Comédia.
Assim como no século XIV, a esperança ainda é diferente para aristocratas e plebeus. Não sofremos igualmente, não pecamos igualmente e nossos destinos estão, portanto, separados e distintos. No livro, Dante criou esse conceito revolucionário em que os pecados eram proporcionais aos castigos. Portanto, no inferno, a expiação dos pecados tem muitas conotações.
Em meio à pior pandemia dos últimos cem anos, o inferno parece se assemelhar bastante com o Brasil de 2020. Espectros sombrios que tomam corpos humanos, impedem a entrada de profissionais de saúde em hospitais. Depois, marcham em uníssono com caixão, pedindo a morte de quem tiver que morrer. É um culto à morte propriamente dita.
Depois, diante da brutalidade da violência sofrida por uma criança de dez anos, a qual expiou por quase metade de sua vida, condenam a criança e esquecem o agressor. É possível que alguns entendam que esses episódios não estão bem demarcados nos nove círculos do inferno, ou que Dante não tenha sido capaz de pensar esse horror. Talvez seja possível que tenhamos inaugurado um novo círculo: o de pessoas que vagam pela terra sem alma, criando aqui o próprio inferno.
A violência sofrida por mulheres em nosso Estado precisa ser combatida. A violência impetrada por familiares agressores e pelas próprias instituições criam um ciclo de violência sobre a violência. Os números são alarmantes. Crianças que perderam a infância e serão marcadas para sempre, em geral pelos que deveriam zelar pela sua segurança e sua vida.
Há quem diga que a culpa é dos agressores, que não podemos fazer nada a não ser punir com rigor. Eu digo que nós mulheres sofremos essa violência diária, naturalizada, enraizada em nossa sociedade patriarcal e machista. Assim, a culpa é coletiva. Quando essas pessoas que vagam sem alma se postam diante de um hospital, gritando que uma criança de dez anos é assassina, mostramos de forma inequívoca nosso fracasso como sociedade.
Mas Dante não esqueceu dos hipócritas. No oitavo círculo do inferno, em um vale povoado, há essa gente que usou e abusou da hipocrisia para alcançar fama, glória e poder. Nele, são condenados a vestir por toda a eternidade uma capa dourada com capuz, cujo forro de chumbo pesa toneladas e torna qualquer movimento ou deslocamento um verdadeiro martírio: o peso da maldade, descrito pelo poeta.
Mas como sair do inferno e alcançar as outras partes até o paraíso? A resposta pode parecer simples, mas exige muito empenho: ética. Entender que o combate não deve ser ao aborto, mas ao abusador e à sociedade que protege o abusador. Que a mulher tem direitos e, entre eles, o direito à liberdade, que é inalienável. A única diferença, no Brasil, é entre os que podem e os que não podem pagar. A hipocrisia impera e nos impede de discutir o problema como ação de saúde pública.
Só as pobres sofrem, só elas têm que passar pela vergonha da exposição. Protocolos estão aí para serem avaliados e mudados. Nenhum profissional de saúde possui o direito a decidir sobre a vida de outrem. Entre orientar, opinar e decidir, há um vale de diferença e este último não está na delegação dada a nenhum profissional de saúde. O direito ao corpo da mulher a ela pertence e somente a ela, no caso de menoridade legal ou incapacidade, essa decisão deve ser compartilhada com seu representante legal, mas esse não é definitivamente o profissional de saúde.
Em tempos sombrios, em que mostramos nossas escolhas, há os que irão escolher se sentar ao lado da verdade, da sabedoria e da esperança, e há os que acolherão respostas fáceis e líderes equivocados. É tempo de entender que, de hipócritas, o inferno está cheio. Não se engane, é possível que no momento suas narrativas toscas possam ser confundidas com verdades, mas nenhuma maldade fica escondida para sempre.

Ethel Maciel

É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

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