Na estreia desta coluna, quero dividir com vocês algumas reflexões e, neste diálogo, ainda que remoto, iniciar a conversa de nosso tempo, a contemporaneidade, nesta nossa coexistência. As dores trazidas pela peste (nome utilizado para descrever as pandemias ao longo do tempo), esse mal contagioso, parecem ser as mesmas. A peste negra, a peste branca, a peste bubônica e tantos outros nomes atribuídos àquilo que nos tira os afetos, a liberdade e o futuro. Da peste de Atenas à pandemia da Aids, os nossos destinos foram moldados entre guerras e pandemias. Muitas vezes, uma seguida das outras.
Sobre os afetos — vivemos separados para nos protegermos. A ciência nos ensina que, longe e em distanciamento social — expressão até então desconhecida de muitos —, o vírus fica impedido de ser transportado e há uma desaceleração do contágio. Nesse distanciamento, aprendemos o valor de pequenos gestos, do toque, do cheiro e daquelas simples conversas que nos tocam a alma. Os afetos ficam em suspensão, por distâncias físicas.
Com o avanço da doença, alguns afetos nunca mais podem ser celebrados e a perda se concretiza em eternidade. A distância não poderá ser vencida nesse plano existencial.
Sobre a liberdade, queremos crer-nos livres, donos e donas dos nossos destinos, mas a peste nos mostra que, na sua presença, até nossa liberdade, tão duramente conquistada, fica interrompida. Já não podemos ir aonde queremos, já não podemos fazer atividades que gostaríamos, mas, mais duro, ao adoecer, vemos nossa desigualdade.
Vivenciamos que, até no sofrimento como em outras pandemias, nossa liberdade não nos é retirada de forma semelhante. Um dos episódios de profunda dor nesta crise foi o ato desesperado de um filho para impedir a transferência de seu pai em estado grave. A pandemia exige protocolos, os protocolos retiram a autonomia do sujeito, a capacidade de racionalmente ter as suas próprias escolhas. Na pandemia, damos por papel passado, ou não, nossa liberdade ao Estado. Mas o Estado não estende suas mãos da mesma forma. As gestões públicas e privadas revelam a desigualdade da nossa liberdade e do nosso sofrimento.
Sobre o futuro, este fica adiado. Já não há planos, ou eles são instáveis. A pandemia nos rouba o futuro. Ficamos nesse limbo do tempo, a ver os dias, que já não contamos, as horas que estão a correr ou a paralisar, mas não sabemos mais o dia da semana, ou ela não tem para nós o mesmo sentido do período anterior à pandemia.
A peste nos causa esse incômodo, esse lapso de tempo, no qual nosso futuro fica em suspenso. Casar, viajar, comemorar são palavras cujo significado causam uma nuvem nebulosa em nosso olhar. Ele há de existir, mas o futuro, esse estranho, já não nos é tão confidente e tão próximo. A vida segue, em outro ritmo, que já não conseguimos definir.
No seu livro “A Peste”, Albert Camus narra uma cena em que o médico se reúne com o prefeito. O médico se preocupa com as mortes; o prefeito, com o nome que chamarão o evento. A peste não é boa para os negócios em nenhum tempo. Após um embate de ideias , o médico responde que pouco importa o nome, ele só espera que medidas de contingência sejam tomadas para se evitar as mortes. No outro dia, cartazes indiferentes relatam que há uma febre, e as mortes continuam, até que a cidade é, por fim, fechada.
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Outras gerações foram colocadas à prova como a nossa, nesse eterno retorno das aflições e, em diferentes tempos, os que sobreviveram à peste tiveram que prestar conta dos seus atos. Há os que se aproveitaram da dor, há os que enriqueceram com o sofrimento, há os que choraram seus mortos, há os que usaram da morte para intenções políticas e há os que fizeram da tragédia uma outra forma de existir.
O tempo, esse senhor da razão, como diria o poeta, está a nos mostrar que, ao fim e ao cabo, como aconteceu em muitas e muitas gerações ao longo do tempo, as máscaras sempre caem e é possível vislumbrar, sem disfarces, quem é quem nesse grande baile da vida.