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Comportamento

A peste chegou! E o que sobrará de nós?

"O humano é sempre uma invenção, reinvenção! Porém, essa falsa zona de conforto e conformismo do cotidiano equilibrado, sem desafios, sem perdas, é abalada quando crises como a que estamos vivendo no momento se estabelecem"

Publicado em 30 de Março de 2020 às 19:09

Públicado em 

30 mar 2020 às 19:09
Bianca Martins

Colunista

Bianca Martins

O medo da solidão que nos devolve a um desconhecido começo de tudo
O medo da solidão que nos devolve a um desconhecido começo de tudo Crédito: Artem Kovalev/Unsplash
A peste chegou! É notório, e nas últimas semanas ouço com bastante surpresa a seguinte oração “precisamos nos reinventar!”. Oras, em que outro momento da experiência humana se acreditou que os humanos, seus laços, seus vínculos e suas fragilidades estavam prontos e encerrados? Ledo engano!
O humano é sempre uma invenção, reinvenção! Porém, essa falsa zona de conforto e conformismo do cotidiano equilibrado, sem desafios, sem perdas, é abalada quando crises como a que estamos vivendo no momento se estabelecem.
De tempos em tempos elas são econômicas, sociais, bélicas. Mas há no humano um dispositivo psíquico sagaz, que se chama recalcamento, que nos faz esquecer o traumático de viver. Ele nos faz seguir dia a dia em uma espécie de ignorância do imprevisível. Ah, o psiquismo e suas artimanhas!
" É urgente que cuidemos da saúde de maneira coletiva e não apenas individual. Taí um vírus micro para nos lembrar da nossa finitude e fragilidade."
Bianca Martins - Colunista
Precisaremos, sim, reinventar novas formas de consumo, os economistas já nos advertiam! Precisamos urgentemente entender que o meio ambiente não suporta tamanho descaso, os ambientalistas e as crianças berram isso aos quatro ventos. É urgente que cuidemos da saúde de maneira coletiva e não apenas individual. Taí um vírus micro para nos lembrar da nossa finitude e fragilidade. Ele toca no que nos é mais caro: os afetos com nossos idosos, que foram tirados do ostracismo que a sociedade de consumo desenfreado promove àqueles que mantêm o artesanal, a ancestralidade e a cultura familiar vivos, por enquanto.
Precisamos cuidar da educação das crianças, que serão as mais afetadas por falta de comunhão com os amigos, submetidas ao retraimento da experiência social ampliada. É urgente que cuidemos de nossas demandas de trabalho, cargas horárias, metas, produtividade. As famílias em home office, sem ajuda de funcionários e avós, poderão testemunhar os efeitos dos acúmulos de trabalho. Sem contar os empresários!
É imprescindível que o Estado se ocupe do bem-estar de seu povo, garantindo direitos básicos a todos.
Mas o que veremos, assim eu espero, é que nada, absolutamente nada dessa experiência substituirá os afetos que recebemos da família e dos amigos que têm demonstrado infinita solidariedade ao terem entendido que ficar em casa é fundamental para a manutenção do pacto social. “Eu cuido de mim e te cuido ao cuidar de mim!”.
As relações de reciprocidade e zelo não precisarão ser reinventadas, elas estavam apenas sem tempo para usufruírem das pessoas. Elas são o que são, pura potência humanizante diante do inimigo invisível e de outros tantos tão abomináveis com que temos nos deparado no momento, como a falta total de estrutura social e governamental para lidar com a magnitude do problema, que é gigante. E aqui não é a psicanalista de famílias e bebês falando, mas sim a mestre em saúde coletiva, que entende um pouco da estrutura do SUS e de epidemiologia – pasmem!
"TEstamos de volta para casa como filhos pródigos, então que nos permitamos cuidar do único lugar seguro no planeta, de seus habitantes e, acima de tudo, que zelemos pelos laços humanizantes que nos unem!"
Bianca Martins - Colunista
Lavar as mãos, cuidar da higiene, zelar pelo lar, são o mantra cotidiano de toda mulher que se torna mãe. Portanto, para nós, mulheres, o desafio de muitos já é nossa tarefa diária. Estamos de volta para casa como filhos pródigos, então que nos permitamos cuidar do único lugar seguro no planeta, de seus habitantes e, acima de tudo, que zelemos pelos laços humanizantes que nos unem!
Teremos sim, muitas invenções e reinvenções, mas antes disso, teremos muito trabalho familiar ao encarar as nossas fragilidades e nossas angústias, com as quais nos depararemos no confinamento, com a ausência de escapes sublimatórios extramuros. A vida pulsante em casa é puro real das relações humanas. Muitas vezes conflituosas. Mas, no momento, lugar seguro! Do bebê ao vovô!
Portanto, que possamos sofrer nos próximos dias, semanas ou talvez meses, do que chamo de Síndrome de Dorothy. Embora o mundo seja sensacional, não existem mais fronteiras, e que no nosso tempo possamos usufruir dos avanços tecnológicos e de toda forma de satisfação, um pequeníssimo vírus nos fez lembrar que “não há melhor lugar no mundo que a nossa casa”. Portanto, #ficaemcasa #poramor #porsuafamília #porminhafamilia #pelosprofissionaissaude #pelosmenosfavorecidos #porhumanidade #apenasfique.

Bianca Martins

É psicóloga, psicanalista, entusiasta da maternidade, paternidade e mestre em Saúde Coletiva. Escreve sobre os bebês, as emoções, os comportamentos, os conflitos e dilemas contemporâneos do tornar-se família

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