O país do futebol parece estar em decadência técnica e moral. Deixou de estar presente nas mídias por suas vitórias nos gramados para frequentar as páginas policiais em razão dos repetidos casos de violência, em especial a sexual e, mais especificamente, o estupro.
Verdade é, entretanto, que o estupro não é uma novidade no futebol pátrio. Ele sempre existiu e o recente caso do técnico Cuca, contratado pelo Corinthians e rapidamente afastado em razão do constrangimento provocado pela denúncia das Brabas, grupo corajoso de jogadoras que assumiram os riscos de seu posicionamento, é demonstrativo de que a cultura do estupro é uma vergonhosa tradição no esporte mais valorizado pelos brasileiros, assim como o é o pacto de masculinidade que valida a prática criminosa e que foi observado, nesse episódio, mostrando as razões pelas quais o Brasil permanece no topo das estatísticas como um dos países do mundo que mais violenta mulheres.
O que parece ter mudado é a tolerância das mulheres com esse tipo crime e a tentativa de rechaçarem toda a qualquer imposição social que lhes reserve o lugar de objetos a serviço dos desejos sexuais de homens.
Ainda que de modo frágil e tímido, é possível perceber que ventos favoráveis começam a soprar no sentido de confrontar o que está posto como verdade no imaginário social, qual seja, de que as mulheres são culpadas, por seus comportamentos, para a ocorrência desse tipo de crime.
Pesquisa realizada pelo Ipea em 2013 sobre “Tolerância social à violência contra a mulher” constatou que quase 60% das pessoas entrevistadas consideravam que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros” . Ao transferirem para elas parcela da responsabilidade pelo estupro, brasileiros validam o comportamento masculino de utilização dos corpos femininos como se fossem objetos.
É preciso reconhecer que a ambiência futebolística é alimentadora da cultura do estupro e das diferentes formas de violência contra mulheres. Agressões domésticas, estupro e até feminicídio estão presentes de forma potencializada nesse ambiente.
Ao mesmo tempo, jogadores envolvidos nesses crimes continuam a gozar de prestigio e reconhecimento, sendo defendidos, por muitos, de forma simbólica, com gestos de validação ou até mesmo veementemente com declarações públicas de defesa e valorização.
O pacto da masculinidade é revelador do machismo entranhado nos gramados. Nem mesmo a condenação nos tribunais parece tirar esses jogadores do lugar de prestígio e idolatria em que sempre estiveram. Nem mesmo a presença de espermas no corpo das mulheres violentadas, prova cabal do estupro, parece inibir as manifestações de defesa pública desses jogadores.
Cuca foi defendido, abraçado e protegido. Robinho, mesmo depois de condenado continuou a ser defendido e procurado para fotos, inclusive com crianças. Bruno, goleiro e mandante do horrendo assassinato de Eliza Samudio, continuou a gozar de prestígio e receber ofertas de emprego.
O poder concedido aos jogadores, em razão da idolatria nutrida pelo sucesso e pelo poder econômico que alcançam com o futebol, alimentam a já sólida e cristalizada cultura machista, violenta e validadora da violência contra as mulheres, existente no Brasil.
Garotos, em sua maioria pobres, levados ao pódio sem o devido suporte emocional necessário à convivência com a notoriedade, com a fama, com a riqueza, e deslumbrados com o poder, se sentem invencíveis e possuidores de todos os direitos.
A cultura é modeladora de comportamentos. Pertencentes a uma sociedade patriarcal, machista e de valorização do futebol como esporte masculino por excelência, esses “pobres” meninos, enriquecidos pelos altos salários pagos aos jogadores que alcançam algum sucesso em campo, se veem transformados em super-heróis, estrelas, ídolos, admirados, amados e validados a terem tudo aquilo que desejarem, inclusive as mulheres. Poucos são os que resistem e que encontram suporte emocional e orientação para se contrapor a essa cultura tão solidamente sedimentada e enraizada.
Essa cultura não será modificada pelo protagonismo masculino. Esperar por isso é alimentar um sonho utópico e, em si mesmo, irrealizável. Somente as mulheres, por meio de sua luta e de sua capacidade de compreensão do problema estrutural no qual se encontram, em todos os espaços públicos e privados, conseguiram fissurar esse bloco granítico chamado machismo e patriarcado.
Isoladamente, nunca terão forças para resistir à influência e as estratégias dessa poderosa estrutura patriarcal que nos envolve a todos e todas.
As mulheres, em todo o mundo, começam a se movimentar e, por meio de denúncias coletivas, dão um basta, dizendo chega, estamos unidas contra o poder patriarcal, violento, injusto e perverso que nos oprime.
As Brabas dão prosseguimento, no futebol brasileiro, à luta de tantas que, individualmente, já se expuseram e sofreram os preconceitos, as violências, os silenciamentos e os cancelamentos reservados a todas que se “atrevem” a denunciar violências sofridas.
As estratégias precisam ser coletivas. A força do grupo de mulheres “Brabas” que derrubou Cuca precisa servir de exemplo para que outros coletivos de mulheres se articulem na luta antimachista que oprime a maior parte da sociedade brasileira e que nos envergonha e empobrece.
É preciso entender que somente um pacto entre as mulheres pode fragilizar e desconstituir o pacto de masculinidade hoje existente não apenas no futebol, mas em todos os espaços onde homens e mulheres convivem a partir da lógica patriarcal que nos está imposta e que precisamos rechaçar.
Por mais que pareça improvável, utópico e irrealizável, é possível sonhar com um pacto de homens e mulheres comprometidos com pautas antimachistas, antirracistas e antidiscriminatórias em geral.