A polêmica Emenda ao Projeto de Lei nº 1.581/2020 apresentada pelo deputado David Soares (DEM-SP), filho do conhecido missionário RR Soares, “dono” da Igreja Internacional da Graça de Deus, na qual se propôs o perdão das dívidas tributárias das igrejas e a isenção das contribuições previdenciárias, aprovada pelo Congresso Nacional, ilumina a face nem tão oculta de uma classe política que se locupleta legislando em causa própria.
O proponente da emenda é nada mais nada menos do que o filho de um dos “pastores” que administra um dos débitos mais significativos ao fisco de que se tem notícias no Brasil. No “toma lá dá cá” da política, ganham sempre os mesmos e perdem sempre os mais vulneráveis.
Interessados diretos e beneficiários da decisão que eles próprios tomavam, membros da Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional, composta por 195 dos 513 deputados federais, e 8 dos 81 senadores, aprovaram um projeto inconstitucional e imoral que não apenas isenta as igrejas do pagamento de tributos como também perdoa uma dívida bilionária que representa uma sangria aos cofres públicos deixando, mais uma vez, claro e cristalino, a quem servem nossos parlamentares.
A dimensão dos débitos das igrejas evangélicas com a União é conhecida de todos aqueles que não se quedam cegos por uma religiosidade encabrestada por discursos carregados do charlatanismo cristão que vêm se alastrando e capilarizando por todos os recantos de uma nação que se afirma cristã mas que nega seus princípios em um cotidiano carregado de falso moralismo.
Enquanto alguns de seus maiores líderes enriquecem, fiéis simples e honestos trabalham para sustentar os luxos de uma liderança agressiva e manipuladora do Parlamento e de todos do Executivo que dependem dos votos de cabresto com o qual eles conseguem eleger políticos que lhes serão eternamente dependentes, concedendo privilégios e favorecimentos que envergonhariam o Cristo que afirmam seguir.
Na lista dos maiores devedores do Fisco, constam algumas das igrejas com maior número de fiéis de nosso país. A mistura dos patrimônios das instituições religiosas e de seus pastores proprietários é construída com esmero por meio de estratégias conhecidas por aqueles que atuam no controle das finanças, sejam elas públicas, sejam privadas.
Líderes religiosos têm se mostrado experts na abertura de instituições com fachada filantrópica que movimentam milhões em arriscadas jogadas fiscais que colocariam na cadeia cidadãos menos experientes e sem o competente aparato contábil e político que lhes está à disposição, além, é claro, dos sempre fiéis escudeiros, políticos eleitos com os votos de uma grande massa de pessoas simples, cristãos verdadeiros ou capturados por discursos convincentes de um porvir grandioso no céu para aqueles que doarem seus parcos recursos para a obra de Deus.
Por meio de táticas legislativas, esses políticos de “Deus” incluem emendas em projetos que tratam de outros temas, mas que se mostram sensíveis a aprovação de proposições legislativas sem o devido sustentáculo constitucional e legal, mas que conseguem mobilizar parlamentares dependentes de votos desse seguimento da população.
Nesse caso específico, parlamentares de esquerda, que normalmente se posicionam contrários a projetos dessa natureza, votaram com a Frente Parlamentar Evangélica, submetendo-se ao desconforto e ao constrangimento, mas preservando parcela, ainda que singela, de seu eleitorado, originado de alguns seguimentos evangélicos.
A expectativa com a decisão presidencial que se sucedeu à votação no Congresso Nacional, apenas evidenciava para nós, observadores do fenômeno político, a dependência do Executivo, ora dos humores dos pastores evangélicos, ora da vontade soberana dos verdadeiros “donos do poder”, esses sim os autênticos soberanos da vontade política brasileira.
Voltando ao recorte temático inicial, os evangélicos neopentencostais, sempre apontados como as raposas de plantão ou como os oportunistas de ocasião, não podem ser acusados sozinhos. Cristãos de muitas e diversificadas tradições e matizes se associaram na defesa do bem que lhes pareceu mais precioso, qual seja, o cofre que protegem a sete chaves, procurando sempre, claro, o respaldo do Estado, que se afirma laico, mas que é controlado, não pelo espírito constitucional, mas pela fé institucionalizada em um cristianismo sem Cristo e seus princípios.
Talvez seja a hora de uma nova reforma, agora não mais contra a Igreja Católica, com suas abomináveis e vergonhosas indulgências que levaram Lutero a liderar um movimento que representou uma ruptura paradigmática para a história humana, mas contra os vendilhões do templo que se apossaram da fé e da religiosidade legítima do povo no século XXI, no Brasil de modo ainda mais acintoso.