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Contradições

Natal, a festa do menino sem teto

A alegria, fruto do espírito, reação química produtora de bem-estar, precisa ser desvinculada, urgentemente, da materialidade de objetos presenteados de forma obrigatória

Publicado em 23 de Dezembro de 2024 às 23:30

Públicado em 

23 dez 2024 às 23:30
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Então, mais uma vez, é Natal!
Considerada a festa da cristandade por excelência, por ser o momento no qual, em quase todo o mundo, se comemora a data do nascimento de Jesus, em uma pequena manjedoura na cidade de Belém, o Natal se transformou na grande festa do luxo, do consumo e do capitalismo.
A festa do menino pobre, sem teto, nascido em um estábulo, compartilhando o espaço com os animais e deitado em um cocho, recipiente para depósito do alimento do gado, se transformou na festa dos ricos, dos presentes caros que movimentam milhões de dólares diariamente nas compras pela Amazon, Mercado Livre e nos shoppings das cidades.
A festa do menino pobre, sem teto, embrulhado em panos rotos, refugiado político desde o ventre, se transformou em festa de manutenção e validação das desigualdades sociais, da exclusão de muitos dos bens da vida, das demarcações, de raça e classe e, também, por que não dizer, de gênero.
O que deveria ser a festa do compartilhamento do pão, da troca de abraços e afetos, do festejar da vida e da esperança com a chegada ao mundo daquele que seria o libertador da opressão, se transformou na festa da angústia consumista dos presentes obrigatórios que consomem recursos que muitos não têm e que submeterão alguns ao medo da frustração de não poder atender as expectativas de filhos, amigos, familiares e amores.
O Natal, a festa da celebração da vida pelo nascimento do menino pobre, sem teto, refugiado, revolucionário, contra hegemônico e fomentador da esperança libertária, foi capturada pelo mercado que nos impõe desejos, ressignificando os conceitos de necessidade e de alegria.
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Criança em situação de pobreza Crédito: Arquivo/Agência Brasil
A alegria, sentimento pessoal, interno, estado emocional que produz contentamento e estado de espírito positivo, não depende de objetos materiais adquiridos no mercado e que alimentam a cultura do consumo. A alegria, fruto do espírito, reação química produtora de bem-estar, precisa ser desvinculada, urgentemente, da materialidade de objetos presenteados de forma obrigatória.
Experiências carregadas de subjetividade mantenedoras dos afetos, dos valores e das crenças podem ser trazidas às festividades natalinas como elementos constitutivos, seja da fé genuína, seja da ética pessoal, manifestada em um agir coerente, solidário, humano e socialmente relevante.

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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