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Política

Entregar o Ministério da Saúde ao Centrão é entregar o coração do governo Lula

Depois do sofrimento vivenciado no período da pandemia e dos riscos pelos quais passamos todos, seria no mínimo razoável que o Ministério da Saúde fosse preservado

Públicado em 

20 jun 2023 às 00:10
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

A sociedade brasileira tem acompanhado com apreensão os movimentos políticos que tentam colocar o presidente Lula de joelhos diante de Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, e, por tabela, do Centrão.
Lira almeja governar o país mesmo sem sentar na cadeira do presidente. Na expectativa desse grupo o presidente deveria existir como uma marionete, somente podendo se movimentar a partir de comandos do Congresso, tendo Lira como o homem “todo poderoso” da República.
Por mais que o atual presidente faça para atender às exigências do grupo politico comandado por Lira, nada é capaz de saciar o apetite voraz do presidente da Câmara dos Deputados.
Nenhum ministério ou conjunto de ministérios oferecidos aplacará o desejo do Centrão de ter sobre o seu controle o Ministério da Saúde, um dos maiores orçamentos e, juntamente com o Ministério da Educação, os que possuem maior capilaridade e força, chegando a todos os rincões desse país, do maior e mais importante município da região Sudeste ao menor e mais insignificante, politicamente falando, município do interior do Amazonas.
São R$ 181 bilhões previstos para 2023 que o Centrão quer utilizar, não para garantir saúde para todos, mas para garantir as próximas eleições. São as emendas parlamentares e as centenas de cargos do Ministério da Saúde que querem ocupar.
Lula, apesar de sua invejável habilidade de negociação política, reconhecida, inclusive, por adversários, encontra-se hoje imobilizado, quase impedido de governar o país,
O segundo turno das eleições, que para alguns se mostrava necessário para articular e comprometer politicamente os grupos políticos mais alinhados com a direita não radical, alinhada com Bolsonaro, acabou por manter Lula reféns dos acordos políticos engendrados para que a democracia pudesse vencer as eleições.
Naqueles 28 dias entre os dois turnos da eleição, diante do risco de que a democracia sucumbisse à força das manobras presidenciais ilícitas, que se utilizavam das instituições e que estavam contaminadas por fake news espalhadas por robôs e por agentes públicos, igrejas e instituições, o então candidato Lula cedeu para não perder as eleições.
A lógica que sustentava os acordos estabelecidos na frente ampla que garantiu as eleições era de que o país não aguentaria mais 4 anos de um governo sob o comando de um louco, perverso, desumano e desvairado sem qualquer limite ético e jurídico.
Vencidas as eleições, a lógica que vige é a de que o governo deve estar totalmente submetido às mesmas forças que, sistematicamente, almejam controlar o país, independente de quem esteja na condução do leme, sentado na cadeira presidencial.
Temos hoje no comando do Ministério da Saúde uma gestora que conhece do SUS por dentro, que tem experiência de gestão, sensibilidade e credibilidade nacional e internacional. Moral ilibada, sem nenhuma mácula. Reconhecida capacidade científica e por comprometimento com a Saúde Coletiva.
Depois do sofrimento vivenciado no período da pandemia e dos riscos pelos quais passamos todos, seria no mínimo razoável que o Ministério da Saúde fosse preservado, ainda que temporariamente, para que pudesse ser recuperar dos estragos efetuados pelo governo anterior. Trocar o comando do Ministério da Saúde entregando a pasta ao um político do Centrão é um ataque à inteligência nacional e um crime de contra a sociedade brasileira.
Aqueles que por possuírem planos de saúde se sentem protegidos, não imaginam a abrangência do SUS e o quanto também podem ser afetados por essa troca que coloca um dos ministérios mais importantes do país no balcão de negócios sujos sustentados por uma classe política descompromissada com a vida e a saúde das pessoas.
Se Lula entregar o Ministério da Saúde, um ministério eminentemente técnico e estratégico para o cumprimento de suas promessas de campanha, ele entregará o coração de seu governo.
O presidente Lula e o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira
O presidente Lula e o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira Crédito: Ricardo Stuckert/PR
O SUS, política pública da maior relevância social e para a democracia, respeitado internacionalmente, concebido e estruturado com base no ideário da saúde como direito de todos e dever do Estado, sustentado nos princípios da universalidade, integralidade e equidade, não suporta mais ser espoliado, subtraído e tornado moeda de troca, nas emendas parlamentares e no Orçamento Secreto, todos eles concebidos no submundo das negociatas obscuras, impossibilitadas de vir à luz do dia.
A falta de maioria no Congresso compromete o governo, Lula e todos os demais atores políticos sabem disso. Impedido de governar por Lira e pelo Centrão, Lula segue cedendo. O problema é que agora falta muito pouco para que o amor do Centrão pela saúde seja consumado.
O único caminho possível de interromper essa paixão desenfreada pelo Ministério da Saúde, deixando que Nísia e sua competente equipe façam o dever de casa, que, registre-se, sabem fazer como ninguém, é que a sociedade civil se mobilize, se organize e faça a pressão necessária, indispensável para colocar no lugar Lira, o Centrão e todos os que ainda não se conscientizaram de que sem saúde não há democracia e sem democracia não há saúde.

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e coordenadora do doutorado em Direito da FDV

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