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Saúde

Enfermagem: as profissionais do cuidado não têm o cuidado que merecem

Chamadas de anjos no período da pandemia e colocadas na linha de frente,  as enfermeiras alimentaram a expectativa de que, passada a crise sanitária, seriam lembradas e valorizada, o que nunca ocorreu

Publicado em 13 de Maio de 2025 às 02:00

Públicado em 

13 mai 2025 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer Elda Bussinguer
No dia 12 de maio se comemora, em todo o mundo, o Dia Internacional da Enfermagem. Nesta data, instituições, gestores de serviços de saúde e familiares aproveitam para parabenizar aquelas e aqueles que se dedicam a uma das profissões mais importantes e necessárias para a manutenção de nossas vidas e para que o direito à saúde possa ser efetivamente garantido.
Passada essa data, na qual oficial e protocolarmente recebem manifestações de reconhecimento, as enfermeiras são, de modo geral, esquecidas, invisibilizadas e silenciadas, passando a fazer parte de um sistema que pouco lhes dedica espaço e verdadeira valorização por tudo que representam.
Opto por falar em enfermeiras e não enfermeiros, considerando que mais de 85% dos 3.192.280 profissionais de enfermagem do país são mulheres e sofrem cotidianamente com as discriminações e violações de direitos às quais parecem ser destinadas às mulheres de forma especial, somente pelo fato de serem mulheres.
A enfermagem, profissão do cuidado por excelência, fundamental e indispensável ao funcionamento efetivo e eficaz dos serviços de saúde, sofre com uma sistemática condição de precariedade e desvalorização incompatível com a importância do trabalho desempenhado.
Chamadas de anjos no período da pandemia e colocadas na linha de frente de seu enfrentamento, sofrendo de forma direta todos os riscos inerentes a uma pandemia sobre a qual pouco se sabia, as enfermeiras alimentaram a expectativa de que passada a crise sanitária seriam lembradas e valorizadas, recebendo o justo reconhecimento que sempre deveriam ter tido.
Tal não aconteceu. A luta pelo piso salarial foi travada de forma injusta e dura, recebendo pouco apoio daqueles que, pouco tempo antes, as colocavam em pedestais, fazendo que acreditassem que por fim teriam o apoio devido à garantia de seus direitos mais fundamentais.
A garantia de um trabalho decente para as profissionais de enfermagem, com condições mínimas de reconhecimento e dignidade, implica em salário justo para além do piso salarial, segurança no trabalho, carga horária compatível com a manutenção de sua saúde física e mental, 30 horas semanais, igualdade de gênero e valorização profissional.
Se as enfermeiras não trabalhassem tanto, ao nível do esgotamento, em dois ou três empregos, além das jornadas exaustivas com o trabalho doméstico não compartilhado com seus companheiros, talvez tivessem tempo para refletir sobre seu próprio valor e o valor justo ao trabalho que desempenham.
Enfermagem
Enfermagem Crédito: Freepik
Talvez, ao compreenderem o quanto são indispensáveis à existência digna de todos nós que delas dependemos, tivessem força e coragem para enfrentar as lutas que são necessárias para a garantia do respeito à sua dignidade profissional.
Para além do piso, das 30 horas, dos direitos trabalhistas devidos e muitas vezes não garantidos, da segurança no trabalho, a luta é por trabalho decente em todas as suas dimensões.
O mundo depende fundamentalmente de cuidado, e as profissionais do cuidado, por excelência, encontram-se sem os cuidados necessários à garantia de sua saúde física, mental e de sua dignidade profissional, que requer reconhecimento e valorização.

Elda Bussinguer

Elda Bussinguer Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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