O verdadeiro arrependimento é aquele que leva ao reconhecimento do erro e à mudança de posição com correção de rota e reparação, por autodecisão, dos prejuízos causados em decorrência dos erros cometidos.
Choro, revolta, raiva, arrependimento e vergonha, decorrentes das consequências, não esperadas, por ações realizadas no calor das emoções ou do envolvimento com grupos radicais que se excedem nos desdobramentos de projetos políticos não compatíveis com a legalidade ou com postura ética que se espera de um cidadão de bem, não podem ser enquadrados no rol dos arrependimentos legítimos e legitimáveis.
E sobre o dia 8 de janeiro? Não há desconhecimento a ser alegado. Não há ingenuidade a ser sustentada. Não há pedidos de desculpas a fazer agora. Cada um dos que participaram dos atos de vandalismo e de violentos ataques aos Três Poderes, ao Brasil e à democracia é responsável pelo ocorrido e deverá responder por seus atos.
A destruição do patrimônio público deve ser ressarcida. Responder penal, civil e administrativamente é procedimento que deveria ser normal no Estado Democrático de Direito para todos. Não pode haver distinções. Sofrer as sanções sociais, enfrentar o medo, a vergonha, a solidão, a discriminação por parte dos que não aceitam a violência e os ataques à democracia será um caminho que deverá ser trilhado para que o processo educativo aconteça.
Triste sina dos arrependidos de ocasião. Triste sina daqueles que, ao se deixaram levar pelo ódio, contaminar pela cultura do desprezo à democracia, se perderam de si mesmos e de seus afetos, em razão de opções políticas sobre as quais talvez nem mesmo tenham refletido de forma racional, consequente e lógica.
Triste sorte dos enredados pelo delírio coletivo que se espalhou pelo país, arrastando, muitas vezes, fora os naturalmente mal-intencionados, pessoas antes sóbrias, introspectivas, não dadas a manifestações coletivas, em uma cultura histriônica, de exposição da incapacidade intelectiva, da falta de senso, da ridicularização dos atos publicizados.
Vergonhoso registro, ampliado e capilarizado de forma implacável pelas redes sociais. Autoprodução de provas em razão do exibicionismo coletivo do mal perpetrado e dos crimes cometidos.
Utilização indevida do cristianismo, misturando atos terroristas, criminosos, como os ocorridos em Brasília e que ficarão para sempre nos registros da história, com atos pretensamente cúlticos, profanadores de Deus e do evangelho.
Ao entoar cânticos de exaltação à Cristo, falando em línguas estranhas e realizando pretensas pregações em frente aos quartéis, em lives e no plenário da Câmara enquanto depredam o patrimônio nacional, com atos violentos e em exaltação do ódio e do desrespeito ao Estado e às leis, os evangélicos brasileiros evidenciam a triste realidade de uma parcela do cristianismo pátrio que se entregou à política, à baderna, à ignorância e ao ódio, distanciando-se dos preceitos mais caros e simbólicos dos princípios cristão relacionados ao amor, à paz, ao respeito às leis (dai pois a César o que é de César e a Deus o que é de Deus) e à ordem.
A mistura trágica entre fanatismo religioso, fanatismo político e fanatismo virtual produziu essa nefasta e sinistra realidade que nos consome de forma mais vigorosa e emblemática há mais de 4 anos e que, agora, esperamos esteja sendo de alguma forma controlada.
As agruras do isolamento social, da exclusão, da discriminação, da falta de empatia, que é destinada a todos que se encontram no lugar de marginalidade imposta pelas prisões brasileiras, será uma dura lição para aqueles que se deixaram contaminar, atrair e viciar, em desejos de ódio, de mentiras e de glória temporária alcançada pela produção de ilícitos, filmados, fotografados e difundidos pelas redes sociais.
Os agora arrependidos, em razão das consequências e dos sofrimentos advindos de seus atos irresponsáveis e criminosos, começarão a clamar pelos mesmos Direitos Humanos que ridicularizaram e que chamaram de coisa de bandidos e de vagabundos.
As queixas de comidas estragadas e de banheiros imundos, compartilhados por muitas pessoas e sem qualquer higiene, os espaços reduzidos das celas, a falta de privacidade, os colchões duros e a água fria dos chuveiros, que sempre povoaram o imaginário social como sendo um castigo merecido para bandidos e vagabundos, passará agora a ser sentido por alguns daqueles que sempre sustentaram a ideia de que lugar de bandido é na cadeia e que cadeia não é lugar de se tirar férias. Sofrerão um pouco daquilo que eles mesmos produziram.
Triste sina dos arrependidos em razão das consequências. Sentirão as dores das prisões brasileiras que não garantem a preservação da dignidade da pessoa humana e desumanizam e abatem o espírito dos mais fracos.
Sentirão um pouco das angústias que acometem milhares de prisioneiros pelo país afora. Longe de se revoltar e construir monstros de rancor e ódio, sugiro utilizarem o tempo de recolhimento sob a tutela do Estado, sem precisarem trabalhar para se alimentar, para a leitura das obras que descrevem os horrores das prisões brasileiras no período da ditadura militar. Essas leituras poderão transformá-los em defensores ardorosos da democracia e dos Direitos Humanos.