Muitas mortes são anunciadas. Mesmo que não se queira acreditar. A grande questão é o que se faz diante de um anúncio desse. No segundo domingo do ano, 8 de janeiro de 2023, o Brasil sofreu uma morte amplamente anunciada.
Os ataques à democracia e às instituições, que reverberam há meses nas redes sociais, rodas de conversas e grupos de WhatsApp, sinalizavam o que estava por vir. As instituições, como deve ser, agiram de acordo com a legalidade e mantiveram a boa-fé, mesmo diante de extremistas. Essa é a essência do Estado Democrático de Direito.
A situação vivenciada por todos nós não deve culminar em uma batalha afastada da legalidade e das garantias constitucionais. Muito menos a brados panfletários que somente acirram a questão. É preciso muita atenção e uma leitura fina de todos os sinais que já são emitidos há tempos, continuam e continuarão.
Afinal, foi realizada uma semeadura de opressão e ódio, que durante um tempo considerado foi germinando sob o olhar incrédulo de muitos de nós. Agora brotou, da forma mais bárbara que existe, destruindo tudo o que tem pela frente.
Pode ser que muitas autoridades constituídas não acreditassem no que aconteceu. Os semblantes dos membros dos Três Poderes constituídos desvelaram o assombro diante dos escombros da democracia. Talvez, a pergunta que ecoasse dentro de cada cabeça fosse: como puderam fazer isso? Como deixamos chegar a esse ponto? Fato é: aconteceu, e tem o risco de continuar acontecendo.
Imprescindível ressaltar que o que aconteceu não se trata de manifestações democráticas. Diferentemente das cenas destrutivas que assistimos ao vivo no 8 de janeiro, as manifestações democráticas têm pauta e agenda de reinvindicação dentro do que está previsto na Constituição para a garantia de direitos, trilhado pelo caminho da construção e diálogo, diferentemente do que temos visto no movimento que se locupleta de símbolos nacionais e adota narrativas distópicas de distração.
A solução não é nada fácil para amenizar a questão, mas encontra-se dentro daquela que foi, materialmente dilacerada e rasgada, por aqueles que não compreendem a mensagem das suas palavras e força do seu simbolismo, a Constituição.
O escritor colombiano Gabriel Garcia Marquéz, em sua obra de 1981, “Crônica de uma morte anunciada”, romance narrativo não-linear, traz a história de Santiago Nasar, que teve sua morte anunciada, motivada por vingança, mas nada e nem ninguém foi capaz de salvá-lo, de certa forma nos traz elementos para pensar nos acontecimentos do dia 8 de janeiro, considerando que a questão central do livro é a reflexão sobre quais os motivos de uma cidade inteira, mesmo sabendo o que estava para acontecer, não impedir ou avisar a vítima.
Nessa linha de raciocínio, e que, ao que parece, já se encontra no radar das autoridades sérias desse país, aqueles que sabiam e nada fizeram poderão ser responsabilizados, diante da gravidade dos fatos e, não mais do risco, mas da realidade macabra e fascista que foi construída no Brasil, sob a conivência, silêncio e justificativas de muitos.