Chamados a se posicionar e a dar sua contribuição diante da crise desencadeada pela pandemia da Covid-19, que afastou os estudantes da escola, estabelecendo um novo modus operandi para a educação, acarretando uma verdadeira revolução, os professores tiveram que se reinventar, criando novas e diversificadas formas de ensino sem que tivessem para isso a capacitação necessária e o tempo lógico de maturação dos processos pedagógicos.
Inseguros, eles próprios assustados com o mundo desconhecido que se apresentava, tiveram que ressignificar sua profissão, colocando-se na condição de aprendizes, chamados a assumir compromissos sem que possuíssem os qualificadores, as ferramentas e a oportunidade de colocar à prova as novas técnicas e métodos de ensino que tiveram que adotar.
Apreensivos, cheios de questionamentos e preocupados com o desemprego e com o futuro, os professores se reinventaram, provocando uma verdadeira revolução na educação.
A ruptura paradigmática que já vinha se descortinando no horizonte, ainda que muito timidamente, despertando em especialistas da educação uma acanhada convicção de que seria imperativo mudar para sobreviver, impõe-se agora como condição única para escapar da morte da escola em seu modelo clássico, centrada na figura do professor, na sala de aula tradicional e na gestão pedagógica tal qual estávamos acostumados há séculos.
Constrangidos a se reconstituir, educadores saíram de sua zona de conforto, nem sempre tão confortável assim, diga-se de passagem, para construir as bases de uma virada pedagógica carregada de uma modernidade para a qual não se prepararam e pela qual não optaram.
A sala de aula - carregada de afetos, de olhares, de ricas vivências, trocas de experiências criativas e fecundas de um processo dialógico, quase sempre caracterizado por oportunidades e desafios estimulantes da criatividade, mediada pela subjetividade enriquecedora e alimentadora do espírito - é substituída, agora, muitas vezes, por uma tela preta de computador, com a qual se conversa, sem que a troca de olhares se estabeleça, sem que a percepção do agrado ou desagrado do tema que está sendo tratado possa ser definidora de uma mudança de rumo e sem que o diálogo de fato seja mediador do aprendizado.
De uma interação efetiva e produtora de vivências desafiadoras, e tantas vezes encantadoras, que se alimenta de diálogos, de sinais, símbolos, signos e de significados, a um encontro virtual, com sujeitos da aprendizagem distantes, muitas vezes envolvidos em atividades outras, com as câmeras e os microfones desligados, o professor padece as dores de um modelo ao qual não está acostumado e que lhe exige competências e habilidades que não lhe haviam sido demandadas até então.
MUDANÇA DE PARADIGMA
Ainda que as aulas voltem a ser presenciais, a educação nunca mais será a mesma. Teremos sido, todos, professores, gestores e alunos, envolvidos e capturados pelas facilidades e possibilidades que se colocam a nosso dispor em um mundo cada vez mais virtual.
Sofreremos, ainda que irresignadamente, alguns, os danos da ruptura paradigmática que se impôs a nós sem que tivéssemos sido consultados acerca do desejo de assumir esses novos contornos pedagógicos.
Sofreremos a dor da perda da troca de olhares com estudantes ávidos por um saber a ser construído juntos.
Sofreremos com a falta do calor e das emoções que como professores sentimos no cotidiano do processo pedagógico.
Sofremos e sofreremos com os dissabores das câmeras desligadas por estudantes que preferem preservar sua intimidade, com a falta de desejo de se apresentar com as roupas desalinhadas, os cabelos não escovados e com a realização de tarefas múltiplas enquanto escutam a fala distante de um professor.
A virtualidade retirou de nós as oportunidades de construção de vínculos de intimidade e de cumplicidade intelectual e humana que os espaços tradicionais de aprendizado nos proporcionavam.
É na vivência cotidiana dos encontros de corpos que se tocam, que se abraçam, que se veem, que se dá a construção de afetos, de histórias e de aprendizados na fantástica viagem à experiência corpórea, humana, de existir na terra.
Todas as rupturas são dolorosas. O passado nos convida à nostalgia. Sofremos hoje, e sofreremos no futuro, a saudade de um tempo no qual professores e alunos se encontravam no pátio para dar prosseguimento ao debate dos insights surgidos na sala de aula.
Sofremos as dores da perda dos espaços de compartilhamento e crescimento de vínculos que duravam, muitas vezes, um vida inteira, na lembrança dos encontros, das risadas, das piadas, dos modos de ser de cada educador que tenha nos marcado de algum modo durante a vida acadêmica.
NÃO É O FIM DA ESCOLA
A escola não vai acabar. Voltaremos a nos encontrar no espaço-tempo dos prédios que conhecemos como escola, universidade ou qualquer outro nome que tenhamos dado ao lugar onde se dava o aprendizado. Não mais da mesma forma, ainda que a pandemia acabe e nos seja permitido retornar às aulas presenciais, sem todo o aparato de guerra ao qual agora teremos que nos acostumar.
A educação, porém, é espaço de criatividade, de construção do novo, de reinvenção da vida e de remodelagem de processos.
A educação é espaço de surgimento de encantadoras formas de nos constituirmos como pessoas que constroem e ressignificam o mundo.
Os professores não serão profissionais do passado. Eles serão os artífices do novo mundo que haveremos de construir a partir da experiência dolorosa desta pandemia.