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Economia

Retomada econômica e recorde de arrecadação não andam juntos

Sem reposição salarial que acompanhe a inflação, trabalhadores têm sido os grandes responsáveis por sustentar o recorde arrecadatório governamental

Publicado em 30 de Novembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

30 nov 2021 às 02:00
Cássio Moro

Colunista

Cássio Moro Cássio Moro
governo federal bate recorde de arrecadação em 2021. No acumulado de janeiro a outubro atingiu R$ 1.527.573 milhões, o que representa o melhor desempenho desde 2000 para o mesmo período acumulado, segundo relatório da Receita Federal (outubro/2021). Com esses dados, o ministro Paulo Guedes tem comemorado a retomada da economia, alegando que está “voltando com tudo”.
Será mesmo?
Soa um tanto estranho falar em recorde arrecadatório num cenário com mais de 13 milhões de desempregados e uma pandemia ainda presente e com dúvidas sobre seu fim, notadamente com a recente descoberta da ômicron. Entre a alta arrecadação governamental e a retomada econômica existe um longo caminho a ser percorrido, não podendo achar, como faz o ministro, que uma decorre inequivocamente da outra.
O primeiro ponto é a inflação num cenário estagnado. A prévia oficial para novembro atingiu sua maior taxa dos últimos 20 anos. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15) atingiu 1,17% em novembro, depois dos 1,20% em outubro. No acumulado dos últimos 12 meses, atingiu a marca histórica de 10,73% (10,34% em outubro). Em que pese haver um aumento inflacionário em todo mundo, no Brasil a coisa tem sido mais intensiva. O principal fator, como todo consumidor já deve ter percebido, é a gasolina. No acumulado anual, os combustíveis veiculares subiram 49,5% nos últimos 12 meses.
A esse propósito, o governo também tem uma segunda fonte arrecadatória: é o maior acionista da monopolista de combustíveis brasileira, a Petrobras. Até setembro, o governo já havia arrecadado, a título de PIS e Cofins que incidem sobre combustíveis, R$ 15,2 bilhões. Já com dividendos (é o principal acionista) arrecadou R$ 23 bilhões, além dos R$ 31,9 bilhões na participação especial e royalties previstos até o final do ano.
E aqui abrimos um parêntese: estatais, quando ainda persistem e, ainda, monopolistas, devem privilegiar sua finalidade pública, qual seja, prestar o serviço ou fornecer o produto com qualidade, mas com preços acessíveis. Sua principal finalidade, portanto, é permitir acessibilidade do cidadão ao produto (= gasolina barata), e não gerar lucros altíssimos aos acionistas.
A elevação nos preços de produtos com baixa elasticidade, isto é, aqueles cuja alteração no valor não altera substancialmente a demanda, dada sua essencialidade, tais como alimentos e combustíveis, é o principal fator de ganhos arrecadatórios tributários do governo. Independentemente do valor de seu salário, o trabalhador tem que comer e se transportar. Ao aumentar o preço de tais produtos, aumenta-se a arrecadação tributária, já que a demanda tende a ser estável. E quem paga a conta? O assalariado.
Sem reposição salarial que acompanhe a inflação, trabalhadores têm sido os grandes responsáveis por sustentar o recorde arrecadatório governamental. Seus salários, a cada mês, vão sendo achatados pela inflação, mas suas compras essenciais se mantêm.
O governo arrecada sem qualquer retomada econômica. Com ainda mais intensidade o servidor público federal, afinal se, por um lado, o servidor assalariado também tem seu provento reduzido a cada mês de alta inflacionária, por outro, seu empregador, o governo federal, economiza com a folha de pagamento (pela alta inflacionária).
O problema dessa “zona de conforto” em que se encontra o governo com a inflação é que setores da indústria e serviços não estão reagindo, e trabalhadores vão sendo desempregados. Em algum ponto não muito distante haverá um estrangulamento na renda do trabalhador e do pequeno empresário, o que vai dificultar sobremaneira qualquer política que reverta a atual situação. Os ganhos decorrentes da inflação, portanto, não passam de uma ilusão provisória, uma virtualidade que não se sustenta, talvez, até as próximas eleições.

Cássio Moro

Cássio Moro Cássio Moro

É juiz do Trabalho, doutorando em economia, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e economista. Professor de graduação e pós-graduação da FDV. Neste espaço, busca fazer uma análise moderna, crítica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

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