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Mercado de trabalho

O fim das profissões: estamos preparados para um futuro sem trabalho?

Talvez seja hora de encarar que, por mais desgastante que possa ser, o trabalho ainda é um dos pilares da nossa vida em sociedade

Publicado em 01 de Outubro de 2024 às 02:30

Públicado em 

01 out 2024 às 02:30
Cássio Moro

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Cássio Moro

Com o avanço avassalador da inteligência artificial e da automação, o fim de várias profissões já é uma realidade. Operadores de caixa, motoristas de táxi, até mesmo contadores e advogados que se ocupam de tarefas repetitivas, todos começam a ver seu futuro profissional reduzido a uma simples linha de código ou ao apertar de um botão em sistemas cada vez mais autônomos.
"Ah, por isso incentivo meu filho a estudar programação”. Pois saiba senhora mãe ou senhor pai que até programadores estão começando a sentir o impacto da automação e da inteligência artificial. Indaguei ao GPT-4 se é possível que ele os substitua e, assim ele me respondeu: “Sem falsa modéstia, eu diria que sim, programadores que apenas escrevem códigos repetitivos ou seguem instruções triviais podem, em grande parte, ser substituídos por sistemas de IA como eu ou outras ferramentas como GitHub Copilot e outros assistentes de programação.”
Em outras palavras, se você tem uma profissão intelectual e, qualitativamente, se acha na média dos demais, pode ser que seja a hora de repensar sua rotina: fazer alguma diferença ou mudar de área.
E quanto ao mercado de trabalho de massa? O que isso significa para o mercado de trabalho, sobretudo no Brasil? Será que estamos prestes a ver o surgimento de um desemprego massificado ou estamos a caminho de um admirável mundo novo sem trabalho, como aquele descrito por Huxley?
Se olharmos pela ótica econômica, a resposta não parece muito animadora. A destruição de empregos por automação e IA, especialmente em um país como o Brasil, com uma vasta oferta de mão de obra pouco qualificada, sugere um potencial aumento significativo do desemprego.
Quando máquinas substituem humanos, o que resta àqueles que dependem do trabalho para sobreviver? Embora a promessa de que novas profissões surgirão com a revolução tecnológica exista, a velocidade com que a IA avança pode deixar milhões de pessoas sem tempo para uma requalificação adequada. E, francamente, não parece que há demanda suficiente por especialistas em inteligência artificial para compensar as centenas de caixas de supermercado que perderão o emprego.
trabalho
Automação Crédito: Reprodução
Nesse contexto, a ideia de uma renda básica universal começa a ganhar fôlego, ao menos na academia. Pouco se discute nas esferas políticas, que seriam capazes de concretizar isso. Afinal, como sugerem economistas como Nick Srnicek (Inventing the future), se o trabalho se torna uma atividade escassa (sem demanda), seria justo distribuir renda de maneira igualitária, garantindo a sobrevivência de todos, mesmo sem emprego.
Essa discussão vai mais além do próprio mercado de trabalho, partindo para uma profunda crise social onde, pela primeira vez, há a possibilidade de o trabalho deixar a centralidade das relações humanas.
Imagine um mundo onde o trabalho humano simplesmente não existe. Será que as pessoas se dedicariam a atividades filosóficas ou a maratonar séries no streaming da moda? Srnicek, ao lado de outros autores pós-trabalhistas, imagina um futuro em que o trabalho como o conhecemos seja algo ultrapassado, mas a verdade é que somos, como sociedade, profundamente moldados pelo trabalho.
Não é só uma questão econômica, é identitária. Então, ao invés de imaginarmos um paraíso ocioso, talvez estejamos mais próximos de um cenário distópico, onde milhões de pessoas, sem perspectiva de emprego, vivem de subsídios estatais, sem propósito e sem perspectiva.
E quem vai pagar a conta desse futuro utópico? Não parece simples que o custo desse mundo sem trabalho seja simplesmente repassado para empresas, notadamente aquelas grandes corporações, pertencentes a estruturas de mercado monopolista ou oligopolista. E se a concentração de renda continuar a crescer (o que já estamos vendo), será que esse modelo de renda básica não seria apenas uma forma de acalmar as massas enquanto os mais ricos se isolam em seus paraísos automatizados?
Portanto, o grande questionamento que já fazemos e devemos começar a pensar na resposta é: estamos preparados para um futuro sem trabalho? Ou melhor, queremos mesmo um futuro sem trabalho? Talvez seja hora de encarar que, por mais desgastante que possa ser, o trabalho ainda é um dos pilares da nossa vida em sociedade. Substituí-lo por uma renda básica e uma existência sem ocupações pode não ser o sonho que alguns futuristas gostariam de vender, mas sim o início de uma nova forma de alienação, dessa vez não pela exploração do trabalho, mas pela sua ausência.

Cássio Moro

É juiz do Trabalho, doutorando em economia, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e economista. Professor de graduação e pós-graduação da FDV. Neste espaço, busca fazer uma análise moderna, crítica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

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