O trabalhador brasileiro anda numa relação curiosa com o dinheiro. Trabalha, produz, recebe salário, consome, paga juros e, ao mesmo tempo, é obrigado a poupar compulsoriamente parte da própria renda. Todo mês, 8% do salário vai para o FGTS. Na prática, um empréstimo forçado e barato do trabalhador ao Estado, remunerado abaixo de boa parte das aplicações financeiras do mercado.
Ironicamente, este mês, ao lançar o programa Desenrola 2.0, o governo decidiu permitir que parte desse mesmo dinheiro seja usada para pagar dívidas privadas. O dinheiro que saiu do bolso do trabalhador para “protegê-lo no futuro” volta para socorrê-lo no presente.
E talvez isso diga muito sobre o momento econômico do país.
O novo programa Desenrola surge num cenário preocupante. O endividamento das famílias brasileiras atingiu 80,4% em março de 2026, o maior patamar da série histórica da CNC. Em outras palavras, oito em cada dez famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida.
E não se trata apenas de financiamento imobiliário ou prestação do carro. O grande protagonista continua sendo o cartão de crédito, seguido pelo cheque especial e crédito pessoal, justamente as modalidades mais agressivas em juros.
Nesse contexto, permitir o uso de parte do FGTS para quitar dívidas possui uma racionalidade econômica evidente. Sob a ótica individual, faz pouco sentido manter dinheiro rendendo modestamente no FGTS enquanto o trabalhador paga juros mensais de dois dígitos no rotativo do cartão.
Trocar uma dívida explosiva por uma redução imediata do passivo pode representar alívio financeiro concreto, redução de inadimplência e até recuperação mínima da capacidade de consumo da família.
Há também um aspecto simbólico importante. Embora visto como um mecanismo protetivo ao trabalhador, na real o fundo funciona como fonte de financiamento estatal para habitação popular e crédito imobiliário. O trabalhador é obrigado a emprestar dinheiro barato durante décadas, sem poder decidir livremente o destino dessa poupança e, ao adquirir um imóvel por financiamento da Caixa, paga juros muito superiores ao rendimento do fundo (percebe a ironia disso?).
Sob essa perspectiva, ao menos agora parte desse recurso retorna para resolver um problema real do próprio titular da conta: o superendividamento.
Mas é aqui que surge a parte menos confortável da discussão.
O programa ajuda famílias, sem dúvida. Porém, ajuda também (e talvez principalmente) o “pobre” sistema financeiro. Afinal, o FGTS não está sendo usado para aumentar renda, melhorar produtividade, elevar educação financeira ou atacar estruturalmente as causas do endividamento do trabalhador.
O dinheiro está sendo canalizado para liquidar passivos bancários já deteriorados. Em linguagem econômica menos delicada: socializa-se parcialmente o risco do crédito ruim utilizando uma poupança compulsória do próprio trabalhador.
Isso não significa que o programa seja ruim, apenas significa que ele atua nos efeitos, não nas causas.
E as causas continuam bastante conhecidas: salários baixos, juros elevados, crédito fácil e caro, baixa educação financeira, perda do poder de compra, inflação persistente em itens essenciais e uma economia que estimula consumo imediato enquanto pune severamente o atraso.
O resultado é previsível: famílias usando crédito rotativo para sobreviver ao mês.
Nesse ponto, o aspecto mais curioso do programa talvez seja justamente o mais residual: ao usar o FGTS para pagar dívidas vencidas, o trabalhador fica vetado a apostar em “bets” por até um ano. A medida tem um evidente tom paternalista, quase tutelar, mas talvez seja uma das poucas iniciativas recentes que enfrentam diretamente um vetor contemporâneo do superendividamento: o vício em apostas.
As “bets” se transformaram numa engrenagem silenciosa do superendividamento moderno. Vendem a promessa de enriquecimento rápido justamente para a parcela mais vulnerável financeiramente, aquela que já convive com orçamento apertado, crédito caro e pouca margem de erro.
E fazem isso utilizando algoritmos sofisticados, publicidade massiva e mecanismos comportamentais pensados para maximizar permanência, repetição e impulsividade. Não por acaso, o avanço das apostas online acompanha o crescimento do endividamento das famílias.
No fim, o novo Desenrola revela uma fotografia bastante brasileira da economia atual. O trabalhador pega emprestado dinheiro caro para consumir, usa a própria poupança compulsória para quitar a dívida e, como compensação, recebe do Estado uma trava para não apostar online.
Entre paternalismo, socorro financeiro e reorganização do crédito, sobra uma conclusão inevitável: o Brasil deixou de discutir apenas geração de riqueza e tenta, antes de tudo, administrar o colapso silencioso do orçamento doméstico.