Assisti, com alegria e esperança, à manifestação enfática, contundente, lúcida, objetiva e corajosa da pastora Helena Raquel durante um importante congresso internacional, no último dia 2 de maio, por meio da qual denuncia a violência doméstica e o abuso sexual, frequentes no meio evangélico brasileiro.
O Congresso, que está em sua quadragésima primeira edição, reúne importantes lideranças das igrejas evangélicas brasileiras, em especial das Igrejas Assembleia de Deus, e a fala da pastora repercutiu de forma rápida, tomando dimensão inimaginável para um evento dessa natureza.
A mensagem da pastora Helena se espalhou como rastilho de pólvora, atingindo, em pouco tempo, um público que jamais frequentaria um congresso religioso ou um templo evangélico. As manifestações favoráveis e contrárias logo começaram a tomar as redes sociais chegando à televisão e às mídias tradicionais.
Conhecidos líderes religiosos acostumados às preleções midiáticas, grandes influenciadores e aliciadores contumazes de pessoas influenciáveis pelo discurso de autoridade religiosa, pretensamente representantes de Deus na Terra, se mobilizaram raivosamente com vídeos tentando ridicularizar e demonizar a pastora.
A manifestação destemida de Helena, uma mulher de 47 anos, só poderia mesmo ter saído da boca de uma mulher que conhece as dores de ser mulher em uma sociedade machista e misógina como a brasileira, possivelmente, ela mesma, vítima das múltiplas e variadas formas de violências que se abatem sobre as mulheres em todos os espaços públicos e privados, mas, especialmente, no meio evangélico, reconhecidamente protetor e validador das violências perpetradas por líderes evangélicos e por seguidores de uma fé baseada no patriarcado, na crença da superioridade dos homens sobre as mulheres e na submissão feminina.
A pastora levanta o véu e expõe uma verdade inconteste. No meio evangélico brasileiro a violência contra as mulheres corre solta, sendo, segundo as estatísticas, um dos segmentos com maior número de mulheres vítimas de violência doméstica e abuso sexual, tudo escondido debaixo do tapete da necessidade de preservar a família e a igreja de Deus.
Ao afirmar que pedófilo não é ungido e que não existe unção que autorize o abuso e que pedófilo é criminoso, ela desmascara a hipocrisia que grassa no meio religioso, mantendo em segredo e protegendo a sete chaves os violadores e abusadores, perpetuando todas as formas de violências e violações cometidas por homens contra mulheres no interior das igrejas e das casas dos denominados homens de bem, cristãos, defensores da família e da pátria.
A pastora falou sem medo o que está preso na garganta de tantas mulheres que sofrem, todos os dias, violências das mais diversas naturezas. Ela é um alento, uma esperança, uma forma de encorajar mulheres a resistirem e não aceitarem ser humilhadas, machucadas, violentadas.
Ela surge de onde não se esperava. Em um evento capitaneado por homens, conduzido por grupos naturalmente conservadores, ligados à extrema direita, que prega a submissão feminina e o silêncio diante das agressões, físicas ou morais, uma mulher se levanta e afirma, em alto e bom som, que é hora de interromper o fluxo destrutivo sobre as mulheres e denunciar os violentadores.
De um modo geral, nas igrejas evangélicas, as mulheres são silenciadas e não podem pregar e nem ao menos orar. Tradicionais igrejas protestantes brasileiras hoje proíbem mulheres de ocupar o púlpito e até de orar em público. Mais do que pregar o amor e o evangelho, pregam a submissão das mulheres como se esse fosse o grande mandamento bíblico.
Ao afirmar durante a pregação “Pare de orar por ele hoje e passe a orar por você. Você precisa ter coragem para sair e fazer a denúncia em uma delegacia da mulher ou em qualquer outro lugar” a pastora Helena dá a senha que as mulheres precisavam. Segundo ela, é hora de buscar ajuda, não é hora de aceitar desculpas e de perdoar.
Helena denuncia, sem citar nomes, pastores e líderes evangélicos, que cotidianamente orientam mulheres que sofrem violência a silenciarem orando a Deus por seus maridos, pois a responsabilidade da preservação das famílias é delas.
Esse discurso, repetido cotidianamente no meio evangélico, precisa ser criminalizado e denunciado. Lideranças que assim orientam devem ser denunciadas como cúmplices de criminosos e perpetuadores das violências.
Helena não ficará impune de sua coragem. Ela sofrerá as consequências de ter enfrentado o sistema religioso, o sistema patriarcal e próprio sistema capitalista que se aproveita do machismo e da condição de inferioridade à qual as mulheres são submetidas.
Que as mulheres de todo o brasil se unam à Helena e às Helenas que com coragem e destemor enfrentam um sistema que nos oprime e torna nossas vidas indignas de serem vividas.
Helena é uma mulher do seu tempo, cheia de contradições e carregada das culpas e discursos religiosos validadores do sistema patriarcal. Todavia, para além disso, é uma mulher de visão e de coragem que poderá iniciar uma cruzada de libertação das mulheres evangélicas, convidando-as para um cristianismo autêntico, baseado no amor, no respeito, na não violência e na igualdade, já que em Cristo “não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher” (Gálatas 3:28).