O homem está, mais uma vez e cada vez mais, encantado com a tecnologia e com as promessas de que o seu avanço nos permitirá um mundo novo que está sendo desenhado e o qual não conseguimos nem sequer imaginar. Nosso modo de viver, de amar, de trabalhar, de fazer política e até de nos constituirmos enquanto ser está sendo remodelado.
São muitos os avanços esperados em todas as áreas da vida humana. Da saúde à educação, à biotecnologia, à conectividade ultra-rápida, à sustentabilidade, à automação, e tantos outros campos, as promessas são infinitas.
Dentro dessa nova dinâmica do existir humano, uma questão está sendo negligenciada e poderá comprometer não apenas o presente, mas o futuro que, a princípio, pode nos parecer fantástico, uma utopia capaz de se concretizar por meio da Inteligência Artificial.
O que será de nossas crianças neste mundo no qual a tecnologia domina e os afetos e as subjetividades são desprezados como produtos de menor valor e, nesse sentido, sem qualquer possibilidade de que nos dediquemos a eles.
Não há dúvida de que o avanço tecnológico vertiginoso nos legará maior eficiência, avanços significativos no setor saúde, aumento da expectativa de vida, conexões ultrarrápidas, veículos autônomos, combustível limpo, maior produtividade e tantas outras promessas fantásticas que nos apontam para um mundo totalmente diferente do que hoje habitamos.
Estamos, entretanto, tão encantados e ocupados com esse novo mundo, que nos esquecemos que nossas crianças estão perdendo aquilo que de mais importante pode ser considerado na construção de um futuro que se deseja e se espera, e no qual depositamos tantas expectativas.
A infância, tal qual a conhecemos, lugar do desenvolvimento motor, da plasticidade, da operacionalização fantástica de sinapses que se conectam, de neurônios que se desenvolvem, de comportamentos que se aprendem, de afetos desenvolvem, de valores que são internalizados, está sob a gestão de uma tecnologia sem os potenciais necessários e indispensáveis para a constituição de um ser carregado de humanidade e de inteligência viva e não artificial.
As promessas são muitas, mas os riscos estão sendo escondidos por discursos e narrativas fantasiosas de um futuro que não existirá, se não nos atentarmos na caminhada e nas implicações desse abandono da infância a uma gestão tecnológica desumanizada e desprovida de sentimentos e de responsabilidades éticas.
O potencial criativo e criador de nossas crianças, semente com alto poder germinativo, se encontra em estágio de latência, encarcerado nas telas de um celular, de um IPad ou de um computador.
O que a tecnologia tem a oferecer a nossas crianças? Muito pouco, ou quase nada. Elas precisam de pé no chão, de balanços, de movimento, de dormir na hora e em tempo suficiente. Para se tornarem adultos capazes, sensíveis e criativos nossas crianças precisam desenvolver um olhar que enxergue o mundo multicolorido. Um mundo que impacte suas retinas com cores de várias tonalidades.
As telas convidam ao sedentarismo que traz consequências as mais diversas. Elas produzem obesidade, dependência, problemas de visão, falta de sono, ansiedade, déficit de atenção, alterações hormonais e tantas outras graves consequências que ainda não somos capazes de dimensionar.
A infância está perdida e não poderá ser retomada. Esse novo modo de viver a infância está produzindo crianças e adultos sem a capacidade criativa, afetiva e moral, para construir o mundo que esperamos. A mediação tecnológica poderá nos oferecer o caos ao invés da ordem e do progresso.
O acesso à cultura de violências múltiplas, à pornografia, aos riscos reais de crimes sexuais virtuais, ao cyberbullying, à agressividade, à dependência tecnológica, à sexualização precoce, à falta de habilidades sociais e ao desenvolvimento de capacidades ligadas a generosidade e coletividade poderá nos oferecer crianças que, pela ausência da infância, se tornaram adultos sem futuro possível.
A infância precisa ser preservada para que o futuro possa ser um sonho realizável.