O Museu da Pessoa gravou uma entrevista com Renato de Jesus definindo-o como o “Senhor das Florestas”, acessível ao público interessado. Prefiro chamá-lo de Guardião das Florestas, por sua opção pela carreira de engenheiro florestal ter-se inspirado nos filmes da Polícia Montada do Canadá, que assistia quando criança, e por ter-se colocado sempre como servidor das florestas, e não senhor.
Renato faleceu em maio, e seu exemplo serve como referência positiva em um país que se destaca tanto pela riqueza dos seus recursos naturais como pela velocidade com que os destrói.
O Brasil detém a 2ª maior área de florestas naturais do mundo, estimada em 486 milhões de hectares, atrás apenas da Rússia. Mas as taxas de desmatamento também estão entre as maiores do mundo, tendo perdido entre 4 a 5 milhões de hectares nos últimos 5 anos, equivalente à área do Espírito Santo.
Há inúmeras causas e responsáveis por esse desmatamento, mas há também inúmeros atores que lutam para detê-lo, com resultados importantes.
Renato de Jesus era um deles. Nascido no Rio, formou-se em engenharia florestal pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, e concluiu o doutorado em Ecologia Florestal pela Unicamp em 2001.
Sua carreira começou em 1976, no projeto RADAMBRASIL, em que ajudou a construir o primeiro grande mapa de vegetação do Brasil.
Em 1977, ingressou na Florestas Rio Doce S.A., controlada da então Companhia Vale do Rio Doce. Ainda em 1977, foi convidado a assumir a Reserva Florestal de Linhares, no norte do Espírito Santo, remanescente de cerca de 23 mil hectares de Mata Atlântica comprado originalmente para produzir dormentes de ferrovia.
Renato aceitou-o de imediato e foi morar na própria reserva, em uma casa tosca e caindo aos pedaços. Sem ter função definida em uma área então meio esquecida pela empresa, ainda estatal, valeu-se disso para definir seu próprio papel inicial: preservar a floresta, combater os incêndios, impedir a entrada de caçadores, pesquisar as espécies e aprender com isso a restaurar os ecossistemas.
Com o tempo, a empresa modernizou-se e foi privatizada, dando apoio a Renato para que traçasse a meta mais ambiciosa de conservar o patrimônio ecológico e transformar a área em um centro de pesquisa aplicado a florestas tropicais, consolidando-a como um dos maiores bancos genéticos da Mata Atlântica, o que lhe valeu o reconhecimento como Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica da Unesco.
O passo seguinte foi buscar a auto-sustentabilidade financeira, com três pilares: ecoturismo e cursos, produção e venda de mudas e prestação de serviços em projetos de restauração.
O trabalho em Linhares se desdobrou em uma série de projetos prestados a outras operações da Vale e a terceiros.
Nos anos 2000, Renato ampliou o alcance de sua experiência, auxiliando Lélia e Sebastião Salgado a restaurarem a Fazenda Bulcão, em Aimorés (MG), que daria origem ao Instituto Terra, ajudando a desenhar a estratégia de plantio, organizar o viveiro de espécies nativas e transformar uma fazenda exaurida em laboratório vivo de recuperação de paisagens.
Reconhecido nacional e internacionalmente, Renato coordenou ao longo da vida o plantio de cerca de 92 milhões de mudas de espécies nativas e a restauração de 100 mil hectares, tendo sido citado em reportagens da National Geographic Brasil como referência em restauração florestal.
Mas como destacou o Portal do Instituto Terra, talvez seu maior legado esteja justamente naquilo que continua vivo: as árvores que cresceram, os ecossistemas que se regeneraram e as pessoas inspiradas por sua trajetória. Em um tempo marcado por anti-exemplos, isso não é pouco.