Com a pandemia, além de novos hábitos, foram se incorporando ao dia a dia novas terminologias, como a expressão “sommelier de vacina”. Em restaurantes e afins, o sommelier é o profissional responsável por cuidar da carta de bebidas alcoólicas, auxiliando os clientes na escolha de qual bebida tomar. Ocorre que, com o avançar da imunização contra a Covid-19 no Brasil, muitas pessoas se julgam no direito de escolher a vacina de qual fabricante tomarão, principalmente o público mais jovem.
Os contratempos gerados pelos "sommeliers de vacina" são tão grandes que alguns municípios já estão adotando medidas para evitar que as pessoas atrapalhem o ritmo da imunização na ânsia de escolher o laboratório responsável pela produção da vacina. Os imunizantes Coronavac (Butantan) e da AstraZeneca (Fiocruz) são os mais rejeitados pelos "sommeliers de vacina" que, em geral, só querem a vacina da Pfizer ou da Janssen (porque é dose única).
Em São Bernardo do Campo/SP, a prefeitura publicou um decreto que envia para o final da fila de vacinação quem se recusar a receber o imunizante disponível na data agendada. Em Vila Velha, quem desiste da vacinação tem que esperar alguns dias antes que o sistema permita um novo agendamento. Com razão os municípios!
Se, por um lado, é compreensível e legítimo que as pessoas saibam qual imunizante estão tomando, a taxa de eficácia e quais são as principais reações à vacina, por outro lado, muitas vezes, interpreta-se mal a eficácia das vacinas, confundindo com os conceitos paralelos de efetividade e eficiência. Em resumo, os índices de eficácia dos imunizantes são estabelecidos com base num modelo, já que o composto é analisado em um ambiente controlado.
A efetividade, lado outro, insere-se mais numa perspectiva realista, analisando a vacinação em um grupo plural. Noutras palavras, a eficácia seria um “dever-ser” enquanto a efetividade refere-se ao “ser”. Já a eficiência dos imunizantes é mensurada em custo-benefício.
Ao que tudo indica, a predileção das pessoas por um ou outro imunizante não traduz preocupação com a saúde, mas motivos outros de toda a sorte e que nada contribuem para o combate à pandemia. Basta lembrar que, antes da pandemia da Covid-19, ninguém chegava ao posto de vacinação perguntando qual laboratório produziu o imunizante. E, mesmo sem saber o fabricante das vacinas que tomamos antes da pandemia, ninguém morreu ou teve sequelas em decorrência da vacinação, muito menos se transformou em jacaré ou numa espécie de “imã humano”. O mesmo não se pode dizer, todavia, daqueles que não foram vacinados contra a Poliomielite (paralisia infantil), por exemplo.
A vacinação é uma estratégia de saúde coletiva, o meio mais factível e razoável de atingirmos a tão comentada imunidade coletiva. Por isso, mais que vacinar pessoas individualmente com imunizantes do laboratório A ou B, é preciso que o maior número de pessoas seja vacinado em datas próximas, criando um verdadeiro escudo protetor contra o vírus. Do contrário, com lacunas na imunização, pode haver espaço para o surgimento de novas variantes do coronavírus.
Importante esclarecer que todos os imunizantes utilizados na população brasileira foram devidamente submetidos a uma criteriosa e prévia análise técnica por parte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que aferiu, dentre outros, a eficácia e segurança das vacinas. A Anvisa é um órgão de prestígio internacional, por isso, podemos confiar nas vacinas.
As vacinas salvam vidas! Não estamos em condições de escolher vacina, até porque imunizante não é vinho.