A relutância do governo federal em incluir as crianças de 5 a 11 anos no Plano Nacional de Imunizações, a despeito de a Agência Nacional de Vigilância Sanitária ter autorizado a aplicação do imunizante da Pfizer nesse público, retrata como a vida tem sido desvalorizada. Primeiramente, o Planalto aduzia não se preocupar tanto com a Covid-19 porque seria apenas uma “gripezinha”, depois, ainda na tentativa de diminuir a gravidade da pandemia, dizia que o coronavírus ceifava apenas a vida de pessoas vulneráveis, como os idosos ou aqueles com comorbidades.
A bem da verdade, a vida do brasileiro nunca foi a real preocupação do Ministério da Saúde no contexto pandêmico. Mesmo porque, toda vida merece ser preservada, seja a de um idoso, seja a de alguém com comorbidade, cabendo aqui enfatizar que, nos tempos atuais, em que prevalece o fenômeno da medicalização da vida, dificilmente haverá uma pessoa que não tenha um ou outro problema de saúde preexistente.
Enquanto diversos países avançam na vacinação de crianças, o governo brasileiro, dando prosseguimento a uma política macabra de negação da ciência e de apelo a movimentos antivacina, inovou ao condicionar a imunização desse público à realização de audiência e consulta públicas. O objetivo da consulta e da audiência pública outro não foi senão postergar o início da imunização das crianças, haja vista que a Anvisa realizou uma análise técnica acerca da segurança e eficácia do imunizante. Nunca antes na história do país uma decisão técnica da Anvisa foi questionada de tal forma, até porque quem deve se pronunciar nessa temática são os profissionais e não o público leigo.
Mas, felizmente, contrariando o interesse do Ministério da Saúde, a maioria dos participantes da consulta popular se posicionou contra a tentativa do governo de condicionar a vacinação de crianças à prescrição médica, algo que poderia prejudicar, sobremaneira, as famílias em vulnerabilidade social que, não raramente, têm de fazer uma via crúcis para conseguir uma consulta pelo SUS.
Apesar de, em geral, as crianças infectadas pelo coronavírus apresentarem quadros mais brandos, não se pode deixar de considerar que, segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde, o número de crianças mortas pela Covid-19 supera o total de mortes por doenças preveníveis com vacinação ocorridas entre 2006 e 2020 no país.
Se não bastasse, se no início da pandemia as crianças acompanhavam seus pais no isolamento social, com a flexibilização das regras de combate à pandemia, as crianças voltaram normalmente ao convívio social, mas, diferentemente dos adultos, totalmente desprotegidas, o que dá espaço para aumento das contaminações, maior circulação do vírus, óbitos e, eventualmente, o surgimento de novas mutações.
Desde o início da pandemia, o governo federal aderiu a um discurso alheio à ciência, totalmente negacionista, distorcendo os dados e os fatos concretos para minimizar a gravidade da pandemia. O governo Bolsonaro, apelando a um verdadeiro charlatanismo desincentivou as pessoas a utilizarem máscaras, endossou o discurso contrário ao distanciamento social, orientou os cidadãos a utilizarem remédios ineficazes contra a Covid (como a Azitromicina, Ivermectina e Cloroquina), tentou atrapalhar a produção dos imunizantes pelo Instituto Butantan, recusou ofertas de vacinas, postergou o início da vacinação no Brasil, deixou faltar oxigênio e insumos em diversas cidades, além de ter tentado convencer a população de que a vacina faz mal. Tudo em nome de uma politização da pandemia e da banalização das mortes.
Agora o alvo do governo parece ser as crianças. É totalmente contraditório um governo que se diz defensor da família, mas nada faz para assegurar a qualidade de vida da população. É ainda mais contraditório achar que induzir crianças às armas é algo para aplaudir, enquanto colocar a vacina no braço da mesma criança seria um absurdo.