Após evadir-se do território nacional vinte dias depois de ser sentenciada a uma década de prisão, a deputada federal Carla Zambelli consolida o modus operandi da extrema direita brasileira: fugir ao cumprimento de determinações judiciais, desdenhar do arcabouço legal pátrio, recusar-se a acatar decisões adversas e, nesse afã, transmutar aplicadores da lei em supostos perseguidores políticos enquanto se autovitimiza.
O ex-presidente Jair Bolsonaro, em sintonia com esse comportamento, instalou-se por 48 horas na Embaixada da Hungria, em Brasília, entre 12 e 14 de fevereiro de 2024, logo após a apreensão de seu passaporte pela Polícia Federal. Antes disso, em 2022, inconformado com a derrota nas urnas e relutante em reconhecer a vitória do adversário, optou, como “bom patriota”, por viajar aos Estados Unidos para evitar a transmissão da faixa presidencial a Luiz Inácio Lula da Silva.
Não apenas Zambelli adotou essa conduta. Eduardo Bolsonaro, zero alguma coisa de seu clã, licenciando-se do mandato parlamentar, estabeleceu residência nos EUA, onde pleiteia, incansavelmente, sanções daquele país contra autoridades brasileiras que, em sua ótica, agiriam dolosamente contra seu progenitor.
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Cumpre observar que esse estratagema de fuga do país não é monopólio da direita. Paradigmático é o caso de Henrique Pizzolato, ex-diretor do Banco do Brasil, condenado a 12 anos e 7 meses por crimes no âmbito do mensalão petista, que em 2013 valeu-se da cidadania italiana para escapar à execução penal, antecipando o expediente agora utilizado por Zambelli. Além de desdenhar do Brasil, tais pessoas, condenadas criminalmente, envergonham o país estrangeiro que lhes concedeu cidadania.
Torna-se flagrante a desenvoltura com que indivíduos abastados burlam a jurisdição nacional, propagando a nociva noção de que preceitos judiciais são negociáveis para detentores de poder político ou recursos financeiros. Justifica-se, portanto, a prisão preventiva decretada contra Zambelli, sua inserção na lista de difusão vermelha da Interpol e a instauração de novo inquérito para apurar possíveis crimes de coação no curso do processo e obstrução de investigação penal que envolve organização criminosa.
É imperioso esclarecer — já que se faz necessário reafirmar o evidente — que não subsiste nenhuma perseguição política ou ideológica por parte do Judiciário. A parlamentar foi condenada por acessar ilegalmente, mediante invasão, os sistemas do Conselho Nacional de Justiça, com auxílio do hacker Walter Delgatti, para forjar ordem de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes.
Além da moralidade duvidosa, a fuga de Zambelli evidencia o esgotamento retórico dos extremistas que, após atacar instituições, restringem-se à alternativa da diáspora, comprovando que a democracia e as instituições brasileiras revelam-se mais resilientes e robustas do que presumiam.