Na segunda-feira (9), uma mulher foi feita refém na Avenida Paulista, uma das mais importantes do país. Tão impressionante quanto as cenas do episódio e a aparente calma da vítima foi a entrevista que concedeu à TV Globo no dia seguinte. Não deixam de ser verdadeiros os comentários nas redes sociais que afirmam que nem em meio a um sequestro o trabalhador pode deixar de lado a preocupação com a rotina diária.
Em sua participação no programa "Encontro", a mulher feita refém destacou que, enquanto a sequestradora a segurava por trás e a ameaçava com uma faca em seu pescoço, em vez de ceder à natural preocupação com a própria vida, as preocupações mais recorrentes diziam respeito ao dia a dia de uma pessoa normal. “Teve uma hora em que eu pensei assim: 'Eu com tanta coisa para fazer, parada aqui'. Aí o ônibus que eu tava esperando passando e ela me pressionando. Falei: 'Ai, não acredito'”, contou a vítima.
Apesar de não existir no Brasil uma legislação prevendo expressamente uma escala 6x1, na prática, parcela significativa dos trabalhadores formais no Brasil acaba trabalhando seis dias na semana e descansando em apenas um, sobretudo em áreas como indústria e comércio. Isso porque a Constituição da República assegura ao trabalhador “duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e quarenta e quatro semanais”.
A jornada estabelecida como limite pela Constituição representa importante conquista social, já que um século atrás o brasileiro trabalhava em média de 12 a 16 horas diárias. Porém, já não é mais suficiente. O mundo atual demanda cada vez mais tempo das pessoas, seja pelas demandas que não existiam há cem anos, seja por ser evidente que não há quem não precise de um tempo para si próprio.
Soa como contraditório, num país em que muito se fala da valorização da família, que as pessoas tenham pouquíssimo ou quase nenhum tempo para estar ao lado de seus entes ou amigos. Avanços como a automação e a inteligência artificial deveriam contribuir para que o trabalhador fosse mais bem aproveitado e tivesse mais tempo livre, em vez apenas de figurar como o fantasma do desemprego.
Praticamente todos os direitos dos trabalhadores foram conquistados arduamente, a contragosto daqueles que detinham e ainda detêm o poder. O tempo e a história mostraram que o grau de sacrifício imposto temporariamente aos grandes lucros compensou o grau de satisfação aos direitos sociais. Reduzir o limite da jornada laboral diária não acabará com empregos tampouco fechará empresas, pelo contrário!
Em diversos países já se caminha, inclusive, a discussões mais ousadas, como o fim de semana de três dias. O Brasil deveria aproveitar a experiência internacional porque trabalhador valorizado executa suas funções com maior qualidade e produz mais. Mas mais importante que isso: trabalhador também é gente.
O trabalho certamente dignifica a pessoa. Todavia a vida não pode se reduzir a pagar boletos e produzir, é preciso ser vivida. Reduzir para 40 horas semanais a jornada máxima no Brasil é um grande passo para a qualidade de vida do trabalhador e das famílias brasileiras.