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Intolerância

Deus não quer que você mate ninguém

O respeito à convicção e à expressão religiosa, volta-se a dizer, não permite que sejam aceitas como naturais falas que incitam matar aquele que é considerado pecador

Publicado em 07 de Julho de 2023 às 00:10

Públicado em 

07 jul 2023 às 00:10
Caio Neri

Colunista

Caio Neri Caio Neri
Pastor André Valadão faz retratação a Lula
Pastor André Valadão faz retratação a Lula Crédito: Reprodução/Twitter @andrevaladao
Durante uma espécie de culto, o pastor André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha, disse que, se pudesse, “Deus mataria” a comunidade LGBTQIA+ e “começava tudo de novo”. Na ocasião Valadão ainda incitou os presentes dizendo que “agora estava com eles” e que deveriam “ir para cima” dessa população.
André Valadão agora é investigado pelo Ministério Público Federal por suas falas de ódio e incitação ao crime. Logo após a polêmica, em suas redes sociais o líder religioso postou uma foto de Hitler sendo censurado, em alusão a uma censura que ele afirma sofrer. E essa não é a primeira vez que a família Valadão se envolve em polêmicas da espécie, sendo conhecidos por propagarem discursos preconceituosos em nome de Deus.
Há não muito tempo, a irmã de André Valadão, a cantora gospel Ana Paula Valadão foi processada pelo Ministério Público Federal por defender publicamente que a “união sexual entre dois homens causa uma enfermidade que leva à morte e contamina as mulheres”, numa clara e preconceituosa associação do HIV à homossexualidade, como se a Aids fosse uma punição divina contra a homossexualidade.
Cabe a cada um, conforme suas convicções religiosas, se direcionar conforme aquilo que o dogma seguido entende como pecaminoso (ou não). Aqueles que assim entenderem, podem considerar a homossexualidade um pecado, porém, a liberdade religiosa não assegura o direito de ofender e muito menos de matar alguém considerado pecador. É bom lembrar que um dos Dez Mandamentos determina que “não matarás”.
Quem considera a homossexualidade como pecado, é simples, basta não manter relações homossexuais. Mesmo porque quem julga o que vem ou não a ser pecado é Deus e não o pastor, o padre ou aquele que tenta se portar como bastião da moral e dos bons costumes. Além disso, nunca ouvi dizer que você seria considerado pecador pelos comportamentos de outrem.
A mesma linha de raciocínio poderia ser feita em relação ao aborto, por exemplo. Uma mulher pode fazer a escolha pessoal por não realizar tal prática, seja por filosofia de vida ou religião professada. Mas há razão em impor esse entendimento às mulheres que pensam diferente? Por certo, a motivação de fundo religioso em muito influencia a decisão política do legislador. Contudo, é pertinente relembrar que, ao menos no plano formal, hoje o Brasil é um Estado laico, não mais confessionário, não adota religião oficial.
O respeito ao direito pessoal a convicção e expressão religiosas, volta-se a dizer, não permite que sejam aceitas como naturais falas que incitam matar aquele que é considerado pecador. Tudo isso causa ainda mais espanto por ser o Brasil um país majoritariamente cristão.
Não me recordo de que em alguma passagem da Bíblia haja orientação para tanto ódio. Cristo acolhia e não apedrejava ou fazia apologia à tortura. Nem mesmo quando crucificado Jesus cedeu ao ódio, pelo contrário, num gesto de compaixão a seus agressores, pediu ao Pai que perdoasse-lhes pois não sabiam o que estavam fazendo.
Talvez a maior mensagem do Cristo tenha sido amar ao próximo como a si próprio, sem ressalvas, mesmo que o outro a ser amado seja alguém de quem você discorde. Amar ao próximo deve se traduzir em respeitá-lo.

Caio Neri

Caio Neri Caio Neri

É graduado em Direito pela Ufes e assessor jurídico do Ministério Público Federal (MPF). Questões de cidadania e sociedade têm destaque neste espaco.

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