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Política brasileira

Bolsonaro, Centrão e as contradições dos bolsonaristas

Não restam dúvidas de que Bolsonaro sempre foi do Centrão e não vê problemas em apelar ao presidencialismo de cooptação

Publicado em 30 de Julho de 2021 às 02:00

Públicado em 

30 jul 2021 às 02:00
Caio Neri

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Caio Neri

O presidente Bolsonaro em evento na Serra Gaúcha
Após eleito, Bolsonaro foi deixando cada vez mais evidente que a suposta repulsa ao Centrão não passou de mera estratégia publicitária de campanha Crédito: Anderson Riedel/PR
Em 2018, após os partidos que integram o Centrão terem recusado o convite para compor a chapa de Bolsonaro, decidindo apoiar a candidatura do então presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB), o agora presidente afirmou que “de um lado está a esquerda e, de outro, o Centrão” e que agradeceria a Alckmin “por ter juntado a nata do que há de pior no Brasil ao seu lado”. Ainda em 2018, o general Augusto Heleno, do núcleo duro bolsonarista, se referiu ao Centrão como “a materialização da impunidade” e até fez uma paródia cantando publicamente: “Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”.
Mas, após eleito, Bolsonaro foi deixando cada vez mais evidente que a suposta repulsa ao Centrão não passou de mera estratégia publicitária de campanha, um verdadeiro estelionato eleitoral. Num claro sinal de hipocrisia, durante o governo Bolsonaro o Centrão foi cada vez ocupando mais espaço. Em resumo, para os bolsonaristas, o Centrão só não presta quando apoia os adversários políticos de Bolsonaro. Como que num passe de mágica, aqueles que eram tratados como a nata da corrupção são alçados ao posto de verdadeiros fiadores do governo Bolsonaro.
A despeito do nome, o Centrão não se caracteriza como um partido de centro. Na verdade, apesar de mais próximo aos conservadores, o Centrão não possui posicionamento político-ideológico bem delineado, sendo fortemente permeado pelo conhecido fisiologismo político. Ao que tudo indica, o objetivo de o Centrão se reunir em bloco outro não é senão barganhar apoio no Congresso em troca de privilégios e regalias.
Tanto é verdade que o Centrão apoiou praticamente todos os governos da história democrática brasileira recente, da esquerda à direita. O mesmo Centrão que apoiou os governos petistas de Lula e Dilma é agora o principal alicerce político do governo Bolsonaro. Noutras palavras, o Centrão costuma apoiar quem lhe der cargos e verbas públicas em troca de seu apoio político.
O poder político de barganha que o Centrão possui é reflexo de um chamado presidencialismo de cooptação, em que, para obter apoio no Congresso Nacional, o presidente da República acaba por negociar com parlamentares, praticamente cooptando-os com alguma benesse. Assim aconteceu em diversos escândalos políticos em que os partidos do Centrão foram os maiores envolvidos, como no Mensalão (durante o governo Lula) e no Petrolão (na gestão de Dilma Rousseff). O Centrão também foi fundamental para barrar denúncias criminais durante o governo de Michel Temer.
A preponderância do Centrão no atual governo salienta mais uma vez as contradições dos bolsonaristas. Em primeiro lugar, nem é preciso dizer que o “toma lá, dá cá” e as “mamatas”, longe de acabarem no atual governo, tornaram-se ainda mais frequentes. Bolsonaro assumiu o governo dizendo que reduziria a máquina pública e cortaria o número de ministérios, mas, para assegurar cargos para os políticos do Centrão, teve que recriar ministérios que foram por ele mesmo extintos.
Na verdade, o governo Bolsonaro está nas mãos do Centrão. Para tentar barrar o impeachment e ter base de apoio no Congresso, Bolsonaro faz aquilo que tanto criticava nos governos petistas: conquistar votos do Centrão em troca de cargos e verbas públicas federais. O próprio presidente Bolsonaro, que cada vez tem menos vergonha de expôr sua relação com o Centrão, não só afirmou que está entregando a “alma do governo” ao Centrão, como, finalmente, reconheceu que ele sempre fez parte do Centrão: “eu sou do Centrão”, disse o presidente que foi filiado a diversos partidos desse bloco.
Assim como sempre foi claro que Bolsonaro não é uma figura nova na política, mas uma representação clara da velha política, não restam dúvidas de que Bolsonaro sempre foi do Centrão e não vê problemas em apelar ao presidencialismo de cooptação. Basta aguardar as desculpas que ele e seus admiradores inventarão.

Caio Neri

É graduado em Direito pela Ufes e assessor jurídico do Ministério Público Federal (MPF). Questões de cidadania e sociedade têm destaque neste espaco.

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