Há algum tempo, além das maravilhas naturais e da riqueza cultural, os brasileiros podiam bater no peito dizendo que aqui também não havia terremotos, furacões, vulcões ou atentados terroristas. Esse panorama está aos poucos mudando. Nesta semana o país acompanhou perplexo as notícias de que um homem detonou explosivos e retirou a própria vida em frente ao Supremo Tribunal Federal.
Tratava-se de ex-candidato a vereador pelo Partido Liberal (PL) e ferrenho apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em fotos posava utilizando as cores verde e amarela, além da bandeira do Brasil, não em ato de puro patriotismo, mas como forma de se identificar como assecla da extrema direita. Em mensagens em redes sociais, mesclando cunho ideológico com religioso, o homem-bomba já deixava claras suas ameaças a políticos dos quais discorda, ao ministro Alexandre de Moraes e à imprensa.
Engana-se ou tem a pretensão de ludibriar a sociedade quem tenta dissuadir que o episódio desta semana na Praça dos Três Poderes tratou-se de fato isolado. Evidentemente, a única vida ceifada foi a do próprio extremista, mas as ideias e pensamentos por ele externadas, por mais reprováveis e bizarras que sejam, encontram coro numa horda doutros fanáticos ideológicos.
Não foi do dia para a noite que surgiu o homem-bomba. O que se sucedeu nesta semana em Brasília não foi obra do acaso ou acontecimento repentino e inesperado. Tampouco se pode atribuir apenas a eventual transtorno mental subjacente ou a outro dilema de ordem pessoal do homem-bomba. A bem da verdade, muito pelo contrário, tratava-se de episódio premeditado e, eventualmente, até mesmo, previsível.
O mandato do ex-presidente Bolsonaro foi marcado por constantes e contumazes mensagens de ódio e de intolerância aos opositores, incentivando os asseclas mais à extrema do espectro da direita (ou do conservadorismo) a se rebelarem caso as urnas dessem a vitória ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que, de fato aconteceu. Havia, até mesmo, um chamado “gabinete do ódio” para disseminar desinformação e criar instabilidades no país. Não é esperado que o pit-bull alimentado com ódio tenha um comportamento dócil.
Fecharam rodovias após a derrota da extrema-direita em 2022, acamparam em frente a quartéis pedindo a volta da ditadura, tentaram criar um caos em Brasília pouco antes da diplomação de Lula, protagonizaram os atentados terroristas de 8 de janeiro de 2023 na Praça dos Três Poderes. Como dizer que o homem-bomba não foi fomentado pelo ódio, intolerância e violência?
A extrema-direita já deu provas do descompromisso com todas as regras do jogo democrático, inclusive, as não escritas, que orientam uma disputa justa e que o resultado das eleições seja aceito também pelo lado menos votado. Democracia não é uma bravata a ser usada apenas quando convém. Concorde-se ou não com a vontade do eleitor, a ela deve aquiescer quem não saiu vitorioso.
A única diferença entre o homem-bomba dessa semana e os extremistas detidos após os atentados terroristas de 8 de janeiro de 2023 é que ele não estava preso! As ideias são as mesmas, há inequívoca vinculação político-ideológica.
Até mesmo por isso, não se deve aprovar qualquer anistia aos envolvidos em episódios de ataques à democracia e às instituições constituídas. Além da resposta àquele que delinque, a aplicação de penalidades pelo Estado também cumpre uma função pedagógica e tem cunho civilizatório.
Anistiar tais pessoas transmitirá uma mensagem de impunidade e alimentará os ímpetos daqueles com tendências a se tornar um homem-bomba. Já temos muitos problemas, não precisamos criar uma espécie de Al-Qaeda, Hamas ou Hezbollah na política brasileira.