Na última semana, esteve em Vitória Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista, filósofo, poeta, escritor brasileiro da etnia krenaque e primeira pessoa indígena a figurar como Imortal da Academia Brasileira de Letras. Em sua conferência na Ufes, Krenak esclareceu que não há dubiedade na expressão “futuro ancestral”, título, inclusive, de um de seus livros mais recentes.
Os cenários tidos, há não muito tempo, como apocalípticos, mais recentemente mostraram-se uma realidade factível e cada vez mais próxima de nossa geração. Se outrora a alcunha “aquecimento global” basicamente sintetizava boa parte de uma incipiente preocupação com o meio ambiente, nos dias atuais ela não é mais suficiente para descrever o todo.
Os dados mostram e a percepção das pessoas confirma que os dias estão cada vez mais quentes, a frequência e intensidade das chuvas foi alterada, a qualidade do ar piorou, enfim, não se trata mais de “apenas” aquecer o planeta. O dilema atual é bem mais complexo e pode significar, inclusive, a capacidade de a espécie humana (e as demais) continuar - ou não - a existir no modo como hoje conhecemos.
Além de modificar as condições climáticas do planeta, a sobreposição do lucro à preocupação ambiental pode conduzir a tragédias que ainda se fazem presentes na vida de inúmeros brasileiros. Nesse sentido, cabe citar o desastre de Brumadinho e o rompimento da barragem em Mariana, que, como um mar de lama, contaminou o rio Doce e chegou ao oceano.
Mais recentemente, temos visto que até mesmo o solo pode faltar quando a exploração mineral é demasiada, como parece ter ocorrido na extração do sal-gema em Maceió/AL.
Enquanto isso, voltando ao “futuro ancestral” de Krenak, as cidades estão cada vez mais cinzas e as pessoas reféns de um consumismo predatório. Faltam espaços verdes para que as crianças de hoje cresçam como as de antes: com os pés no chão e com árvores para subir.
Se a pandemia mostrou que usar uma máscara de proteção facial pode ser um incômodo (para uns mais que outros), imaginemos ter que usar toda uma parafernalha para respirar em um planeta no qual nem sequer há oxigênio para respirar. Antes de colonizar Marte ou qualquer outro planeta, é importante pensarmos no planeta que temos hoje.
A água, o ar e os demais recursos naturais não podem continuar sendo tratados como coisas ou bens. Enquanto não os respeitarmos como fontes e formas de vida, estaremos fadados a uma procura por outro mundo enquanto este se deteriora.