A despeito de obras e projetos realizados ou anunciados nos últimos anos, o problema da mobilidade urbana persiste. Antes restrito a determinados horários, o caos no trânsito e os ônibus lotados são realidades cada vez mais presentes na vida daqueles que moram nas regiões urbanas.
Talvez porque o foco de boa parte dessas medidas sejam voltadas aos veículos privados, em vez de se destinar a melhorias no transporte público coletivo. O planejamento das intervenções públicas em avenidas e ruas das cidades estão mais preocupados com os carros do que com pedestres ou com os usuários do transporte público.
A lógica deveria ser totalmente inversa. A situação de quem está aglomerado em ônibus usualmente lotados, muitos ainda sem climatização, obviamente é mais gravosa do que a de quem está sentado, no conforto do ar-condicionado de seu veículo particular.
O número de ônibus deveria aumentar mais que o número de novos veículos de passeio nas ruas. Sobretudo nas cidades com vias estreitas, com raros viadutos e com muitos semáforos, como nos principais municípios da Grande Vitória.
O Jornal Nacional divulgou no último dia 16 um levantamento da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos que aponta que a frota de ônibus urbanos das capitais brasileiras é a mais antiga dos últimos 30 anos. Em média, os ônibus que circulam pelas capitais estão com 6,4 anos de uso, representando um recorde negativo da série histórica. Se não bastasse, os percursos e as viagens realizadas pelos coletivos diminuíram cerca de 30%.
O resultado disso não poderia ser diferente. Houve uma queda igualmente significativa, senão maior, quando se trata da qualidade dos serviços ofertados pelas empresas concessionárias dos serviços de ônibus urbanos. Muitos veículos estão em situação precária, não oferecem o mínimo conforto aos passageiros que, frequentemente, se veem obrigados a enfrentar grande espera nos pontos de ônibus, haja vista que caiu o número de viagens realizadas.
Como os ônibus demoram a passar, para não perder o horário de seus compromissos ou simplesmente retornar para casa após um exaustivo dia de trabalho, os passageiros se veem obrigados a enfrentar ônibus lotados. Com as paradas a cada ponto e com os problemas crônicos de mobilidade urbana, não é incomum que viagens que deveriam demorar minutos, ultrapassem horas de duração.
Na Grande Vitória, o problema também se repete, assim como em outras regiões metropolitanas. Apesar de terem sido entregues novos veículos ao sistema Transcol nos últimos anos, é fato possível de ser constatado nas ruas que muitos ônibus ainda são antigos e não possuem ar-condicionado. Mesmo nesses veículos mais antigos, os cobradores estão sendo excluídos das funções, o que também tem gerado protestos por parte dos trabalhadores do setor.
Tudo isso se reflete em diminuição da qualidade de vida dos cidadãos que vivem nos conglomerados urbanos, que têm seus dias divididos entre longas jornadas de trabalho e igualmente extensas horas no trânsito, dentro de ônibus velhos, demorados e lotados.
A questão em Vitória tem, ainda, o complicador de que os ônibus são o único modal de transporte público coletivo. O metrô prometido em campanhas eleitorais passadas faz parte apenas do imaginário do capixaba. Mas, nem por isso, os gestores estaduais e municipais têm dado predileção ao transporte coletivo em detrimento ao individual. Basta ver o caso de Vitória, por exemplo, uma ilha com trânsito crescente e que insiste em privilegiar quem anda de carro. A cidade ainda pode ter mais ciclovias e carece de faixas exclusivas para ônibus. Nessas condições, quem preferirá pagar caro por ônibus sem tanta qualidade?
Apesar de ser bem-vinda a reinauguração tardia do sistema de transporte aquaviário, não é inovação na Grande Vitória. E, nos moldes como colocado, o aquaviário ainda não terá condições de desafogar os ônibus, já que é muito restrito o alcance das barcas, com poucos pontos de parada previstos. O aquaviário não abrange a Serra (município mais populoso do estado), tampouco a maioria dos bairros dos municípios de Vitória, Vila Velha e Cariacica.
Enquanto o poder público não se preocupar efetivamente com quem depende do transporte público, as consequências serão ruins até para quem pode escolher não usar o transporte coletivo. Basta ver que, a despeito de obras e projetos realizados ou anunciados, o problema da mobilidade urbana persiste e a vida passa enquanto as pessoas ficam presas no trânsito das grandes cidades.