Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Retorno

Venezuelanos de volta a Vitória: vozes dos refugiados devem ser ouvidas

Entender a autodeterminação dos povos da Convenção 169 da OIT requer um compromisso com a proteção dos direitos dos povos indígenas e tradicionais, garantindo-lhes a liberdade e a autonomia para viverem de acordo com suas tradições e valores

Publicado em 20 de Março de 2024 às 01:40

Públicado em 

20 mar 2024 às 01:40
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Um grupo de 24 refugiados venezuelanos indígenas da etnia Warao retornou ao estado no dia 5 de março, desembarcando na Rodoviária de Vitória, vindos de Belo Horizonte. O grupo já esteve na Capital anteriormente, quando tentaram viver aqui mas tendo enfrentado uma série de violações de direitos quando do seu abrigamento pela municipalidade de Vitória. O grupo foi praticamente constrangido a deixar o nosso estado.
Nos últimos anos, tem ocorrido um fluxo significativo de refugiados venezuelanos da etnia Warao em diversos países da América Latina, em busca de melhores condições de vida e oportunidades. Os Warao são uma das etnias indígenas mais antigas e tradicionais da região, com uma história cultural rica e uma forte ligação com a natureza.
A história dos Warao remonta a séculos atrás, quando habitavam as margens dos rios Orinoco e Delta Amacuro, na região da Venezuela. Conhecidos por suas habilidades na construção de casas flutuantes, os Warao sempre viveram em harmonia com a natureza e dependiam da pesca, da caça e da agricultura para sua subsistência.
No entanto, com o agravamento da crise política e econômica na Venezuela, muitos Warao foram forçados a deixar suas terras de origem em busca de novas oportunidades. Como resultado, muitos deles se tornaram refugiados em países como Brasil, Colômbia e Trinidad e Tobago.
Os refugiados venezuelanos da etnia Warao enfrentam desafios específicos em sua jornada de busca por uma vida melhor. Muitos deles enfrentam dificuldades para se adaptar a novos ambientes urbanos, pois estão acostumados a viver em comunidades mais tradicionais e próximas à natureza. Além disso, a barreira linguística e cultural pode dificultar sua integração nas sociedades receptivas.
É importante ressaltar a importância da autodeterminação dos povos indígenas, incluindo os Warao, em seu processo de refúgio e integração. É fundamental que suas características culturais e tradições sejam respeitadas e valorizadas, para que possam preservar sua identidade e se adaptar de maneira saudável e sustentável em suas novas realidades.
Venezuelanos ocupam terreno ao lado da Rodoviária de Vitória na Ilha do Príncipe
Venezuelanos ocuparam terreno ao lado da Rodoviária de Vitória na Ilha do Príncipe no início do mês Crédito: Vitor Jubini
A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) é um instrumento internacional que estabelece direitos fundamentais para os povos tradicionais e indígenas. Um dos princípios centrais abordados pela Convenção é o da autodeterminação dos povos, que garante o direito desses grupos de escolherem livremente seu status político e desenvolverem sua própria cultura, economia e formas de organização social.
A autodeterminação dos povos é um princípio fundamental que visa garantir a liberdade e a soberania dos povos indígenas e tradicionais. Isso significa que eles têm o direito de decidir sobre questões que afetam diretamente suas vidas, como a gestão de seus territórios, o uso de seus recursos naturais e a preservação de sua cultura e identidade.
Sendo assim, no espírito da Convenção 169 da OIT, a autodeterminação dos povos inclui o direito dos povos indígenas de serem consultados e envolvidos em processos de tomada de decisão que afetem seus direitos e interesses. Isso é crucial para garantir que suas vozes sejam ouvidas e que suas necessidades sejam levadas em consideração em políticas e programas governamentais.
É importante que fique claro, que a autodeterminação dos povos também se aplica aos refugiados indígenas, ou seja, aos indivíduos que foram forçados a deixar seus territórios devido a conflitos, violência ou perseguições. Essas pessoas também têm o direito de decidir sobre seu destino e de serem reconhecidas como membros de um grupo étnico específico, preservando assim sua identidade cultural.
Assim, entender a autodeterminação dos povos da Convenção 169 da OIT requer um compromisso com a proteção dos direitos dos povos indígenas e tradicionais, garantindo-lhes a liberdade e a autonomia necessárias para viverem de acordo com suas tradições e valores. É essencial que os governos e a sociedade em geral respeitem e promovam esses direitos, contribuindo assim para a construção de sociedades mais justas e inclusivas. A Convenção 169 da OIT é um importante instrumento para orientar as ações nesse sentido e garantir que os direitos dos povos indígenas sejam devidamente protegidos e respeitados.
Infelizmente, desde o retorno do grupo no início de março até agora, o que estamos vendo na forma como vem se dando o contato, o acolhimento e o atendimento deles é uma tentativa de criminalizar a própria existência do grupo, o que viola não só o direito internacional dos refugiados como também os princípios norteadores da Convenção 169 da OIT, aos quais não só Brasil está obrigado, como especificamente todos os entes federativos, ou seja, o município de Vitória e o Estado do Espírito Santo.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Real Noroeste x Porto-BA, pela Série D do Brasileirão 2026
Real Noroeste sofre mais uma derrota e segue na lanterna do Grupo 12 da Série D
Imagem de destaque
Duas pessoas são presas com carro que havia sido roubado no Sul do ES
Imagem BBC Brasil
As mudanças climáticas vão nos encolher?

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados