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Longe de casa

Refugiados merecem bem mais do que a compaixão das pessoas

A ocupação do Afeganistão pelo grupo Talibã, a partir da retirada às pressas do exército norte-americano do país nos últimos dias, trouxe novamente para o debate público internacional a questão da migração forçada

Publicado em 25 de Agosto de 2021 às 02:00

Públicado em 

25 ago 2021 às 02:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Afeganistão
Afegãos lotam o interior de uma aeronave de transporte da Força Aérea dos EUA em 15 de agosto de 2021 Crédito: Reuters/Folhapress
Nas minhas pesquisas e contatos com migrantes forçados, entre eles refugiados que vivem aqui no Brasil, especificamente no Espírito Santo, vejo que essas pessoas são cercadas de uma comoção piedosa, expressadas por meio de ações de caridade. Essas ações, estimuladas por um sentimento de pena, impedem que as pessoas em situação de migração forçada sejam vistas em sua integralidade como seres humanos.
Enxergar a essência humana, com suas idiossincrasias e sonhos, em cada um dos refugiados que chegam aqui é uma necessidade que deve ser o mote de qualquer política pública a ser adotada pelos governos locais que estão recebendo pessoas em situação de mobilidade humana no contexto atual de crises globais cada vez mais violentas.
O clichê da figura do refugiado, que vem sendo mais e mais explorada por reportagens superficiais, sem a profundidade necessária, coloca o refugiado como um ser humano que antes de mais nada é um corpo isolado, sem características próprias, sem vida anterior ao momento da fuga de seu país de origem.
Passamos a ver um ser humano, sem história e sem futuro, cultivando-se assim uma narrativa repetida inúmeras vezes: daquela pessoa que atravessou o Mediterrâneo nadando; ou daquela que fugiu do Estado Islâmico; ou daquela pessoa que sofreu perseguição de gênero em seu país.
Não se indaga, efetivamente, quem é essa pessoa. Antes de mais nada, as narrativas superficiais reforçam mais a figura do perseguidor do que a do ser humano por trás da história contada. O que seria ideal é que nos informemos sobre o que move aquele ser humano, o que ele fazia em sua vida antes da migração, quais são os seus sonhos futuros, como ele pode contribuir com seus conhecimentos para a nossa sociedade. São vários questionamentos que deveríamos fazer aos migrantes forçados que chegam ao Espírito Santo, antes mesmo de afundá-los em um mar de cestas básicas e roupas usadas, itens que lhes são doados por pena.
Não negamos que todas as pessoas que estão em situação de insegurança alimentar devem ser alimentadas. O problema é aceitar que a distribuição de cestas básicas vai dar conta da questão da migração forçada que bate às nossas portas aqui no Estado e em diversas outras partes do mundo.
Afinal, vivemos, de acordo com o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR), o período da humanidade em que mais pessoas estão deslocadas de seu lugar de nascimento e residência habitual. Hoje em dia, um pouco mais de 1% da população mundial está em situação de migração forçada, um número muito expressivo e sem precedentes na história mundial.
A ocupação do Afeganistão pelo grupo Talibã, a partir da retirada às pressas do exército norte-americano do país nos últimos dias, trouxe novamente para o debate público internacional a questão da migração forçada. O desespero de pessoas, inclusive crianças, na pista do aeroporto de Cabul, tentando embarcar em um dos voos humanitários organizados pelos EUA, escancara a dor de quem não tem nada a perder e aceita a fuga como única saída para uma vida digna.
O que se vê por trás disso é que a perseguição é tão grave que as pessoas aceitam abandonar uma vida inteira cheia de histórias a fim de salvar a própria vida. Mesmo deixando o seu lugar de origem, as memórias, lembranças e sonhos não se desprendem dessas pessoas; são esses sentimentos que as fazem humanas, por isso devem ser valorizados e não esquecidos.
A perseguição é algo que a maioria dos refugiados não quer lembrar, mas isso não quer dizer que eles querem esquecer quem verdadeiramente são, a sua história de vida, seus familiares, amigos, profissão, sonhos, amores etc. Imagine se você fosse obrigado a esquecer tudo que viveu de um dia para o outro e fosse obrigado a encaixar-se dentro de um padrão de mendicância, vivendo com cestas básicas e roupas usadas. Isso seria, certamente, insuportável!
Essa linha de raciocínio é um pedido para que passemos a enxergar as pessoas em situação de migração forçada não somente como alguém que precisa de nossa caridade (seja ela religiosa, seja ela humanitária), mas alguém de corpo e alma, que precisa ser reconhecido como um ser humano digno, com uma história de vida anterior que não deve ser esquecida. Muitos refugiados acabam por se submeterem a situações de piedade, por ausência mesmo de opção, pois se não aceitam a posição em que são colocados, possivelmente nem mesmo o que comer teriam.
Temos visto, aqui no Espírito Santo, muitas pessoas que aceitam subempregos e humilhações no ambiente de trabalho, porque a sociedade entende que os estrangeiros que aqui chegam em situação de migração forçada não têm nada a nos ensinar, a dividir conosco.
A verdade é que essas pessoas nem sequer são perguntadas sobre sua história e sonhos, muito porque as instituições públicas ignoram as dores que fazem parte do fenômeno da migração forçada. É muito fácil entregar cestas básicas e roupas usadas, difícil é reconhecer a dignidade de cada ser que chega às nossas cidades em busca de um refúgio (lugar de acolhimento).

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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