A Grécia nos inspira a filosofar, a viajar, a debater democracia e República, a ler e a ir ao teatro, e, até mesmo, a comer bem e ser saudável! São tantas coisas boas que herdamos do povo grego ao longo da história da humanidade. Talvez o primeiro ponto a ser lembrado é, justamente, a filosofia grega que inspira a nossa civilização ocidental na sua cultura, no seu agir e seu modo de viver.
Muitos acreditam que quando a filosofia surge na Grécia antiga, com Tales de Mileto, por volta do século VII a.C., pairava sobre as cidades que nasciam naquela época às margens do Mar Egeu um “espírito grego”. Esse espírito teria inspirado os primeiros filósofos pré-socráticos a indagarem e contestarem as explicações mágicas da tradição mitológica contida nas epopeias homéricas.
Na fase homérica da história grega, entre 1200 a 800 a.C., o agir humano era pautado nas determinações e conjunturas forjadas pela mitologia. A ordem do mundo, o lugar de cada coisa no espaço, até mesmo o existir humano, tudo isso era explicado magicamente, pela tradição mitológica.
A grande revolução, portanto, que o primeiro filósofo faz é questionar essas explicações. Ou seja, o primeiro filósofo é um não conformista, que não aceitava a explicação mágica para entender o seu lugar no cosmo, a natureza das coisas e do próprio ser humano.
É lógico que toda reflexão, nesse primeiro momento da filosofia, ainda era muito incipiente e sem laboratórios, supercomputadores e satélites interestelares, como os que temos hoje em dia. Mas já ali, naquele momento, o ser humano fazia-se questionador da explicação dada sem qualquer justificação, como disse acima, pois não mais se conformava com a explicação mágica.
Mitologia é mágica, e mágica a gente gosta de ver só no circo e quando a gente é criança!
A filosofia grega vai permitir ao ser humano, então, contextualizar o status quo, influenciando a sociedade ao seu redor, permitindo-se também a participação no debate político. Assim, nesse contexto, os gestores públicos passam a ser questionados e terem que justificar o seu atuar. A filosofia política contemporânea cuida justamente dessa temática, analisando, questionando, refletindo sobre modos de participação na esfera pública, de forma democrática, por todas as pessoas.
Com base nessa busca pela reflexão crítica, a partir da qual a filosofia surge na Grécia antiga, indagamos atualmente o papel da Grécia no mundo de hoje. Dois grandes fatos chamam a atenção: a imposição de ajuda financeira do FMI ao país após a crise financeira mundial de 2008; e a imposição do dever de abrigar os refugiados da Guerra na Síria que fogem em busca de abrigo na Europa.
Aos gregos foi imposta a racionalidade econômica moderna pelo FMI e pela União Europeia, que os fez adotar um plano de austeridade severo, reduzindo aposentadorias, salários, políticas públicas de assistência social e causando um nível de pobreza entre os habitantes do país que se comunica aos refugiados que não param de chegar desde 2011.
Com o novo auge da Guerra na Síria, principalmente agora nas batalhas na região de Idlib, na fronteira com a Turquia, o governo turco reabriu as suas fronteiras com a Europa, permitindo assim um grande fluxo de pessoas em situação de mobilidade humana para a Grécia. As imagens que nos chegam são de barracas de lona com o símbolo do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR) superlotadas, num país que já sofre com as políticas de austeridade econômica, tendo que ser solidários no lugar dos europeus ricos.
Onde estará o espírito grego nesse momento da história da humanidade? O espírito que inspira a civilização europeia e que molda até mesmo os valores da União Europeia parece ter abandonado o bloco econômico, que se nega a receber refugiados em seu próprio território, deslocando o seu dever de hospitalidade e solidariedade ao território grego, visto como uma país europeu de segunda classe. Seria bom que os bons ventos levassem o espírito de volta para o Norte europeu, de modo que ele voltasse a inspirar a hospitalidade e a solidariedade entre os seres humanos e países.