Uma coisa parece preocupar a tribo da Mãe Literatura: o excesso de gente publicando livros enquanto, pelo reverso, o número de leitores mingua. Não são poucas as criaturas que andam espantadas com a imensa quantidade de gente escrevinhadora. Ao mesmo tempo, correm notícias sobre a perda do público leitor nos últimos anos. Um paradoxo.
Se tanta gente anda a escrever, seria mais lógico que a mesma quantidade de gente, ou mais, estivesse a ler. A menos que se acredite que quem escreve não leia. Ou que apenas leia suas próprias palavras escritas.
Hoje, a publicação de um livro tornou-se mais fácil. Antes, aceitava-se o risco de mandar uma obra para uma editora de nome conhecido. Era dificultosa a angústia de esperar a resposta. Para conciliar a ansiedade, acreditava-se piamente que as editoras estariam a avaliar todos os pormenores do texto. Uma profusão de quesitos deveria estar sendo investigada por algum douto examinador. Terminado o reconhecimento, vistas as qualidades, a carta de aceitação chegaria. Já se anteviam noites de autógrafos, entrevistas, probabilidades de vendas nas livrarias. Ganhar concursos literários também era uma boa opção. Mas, às vezes, nem a sonhada resposta era dada, para desilusão de quem se candidatava ao rol de escritores. O tempo não apenas é o senhor da verdade (como estampava a camiseta de um certo político de não tão saudosa memória), mas também é o destruidor de devaneios.
Agora a história mudou. O advento da internet encorajou uma vitrine de exibição pessoal. Criou-se um espaço democrático, onde qualquer coisa pode ser escrita, mesmo que nem tudo escrito lá seja lido. As livrarias estão quase todas fechadas. Os concursos nem sempre funcionam na base do mérito, preferem seguir as manias da moda. Editoras de nomes por vezes esdrúxulos brotam como cogumelos na chuva. Para algumas delas, publicar um livro se tornou um valioso filão, porque muitas pessoas não se importam de pagar para isso.
Escrever é um trabalho nobre aliás, mas sem explicação, como anuncia Manoel de Barros, o poeta. Nem sempre a pessoa é bem-dotada para esse serviço. Mas o sonho de ter um livro publicado com seu nome na capa é mais forte. Talvez isso represente a satisfação de uma vaidade íntima, a conquista de um desejado respeito diante da família, dos amigos, dos conhecidos. Eu, de mim, penso que ninguém deve ser proibido ou coibido do que quer que deseje fazer para ter seu lugar ao sol. Mas sou apenas uma apaixonada pela minha profissão de escriba de ficção. Deixo a tarefa de julgar para quem tenha a necessária expertise.