No breviário de minhas lembranças (talvez nas lembranças de muita gente também), nas escolas primárias, em dias de festividades patrióticas, sempre aparecia alguém com disposição para “dar uma poesia”. Essa expressão significava declamar um poema. Sem questionar o uso do verbo dar, que no caso resulta até singelamente gracioso e poético, eu aproveito a frase para pensar a substituição da palavra “poema” por “poesia”, tal como é usada no senso comum. Tem a ver com uma dupla de irmãs que o senso comum faz passear de mãos dadas na praça da mãe literatura: a poesia e a prosa.
Existe quem acredite na separação entre essas duas. Há quem ache que poesia é um tipo de texto em versos e prosa é uma narrativa com começo, meio e fim. Muita gente boa está acostumada com isso. Até mesmo poetas, que conhecem melhor que ninguém seu ofício, costumam escorregar nessa casca de banana linguística. São as lamentáveis rotas habituais, como diziam os surrealistas, aquelas incríveis criaturas, um tanto malucas, um tanto geniais, que tentavam quebrar as mesmices na existência e na arte.
Aprendi com meu escritor de cabeceira, Vladimir Nabokov, que o senso comum é “o senso tornado vulgar, barateando confortavelmente tudo que ele toca”. E parece que para algumas pessoas dizer que escreve “poesia” fica bastante mais confortável e sublime (além de contentar melhor o ego) do que dizer que faz versos, ou seja, que escreve poemas.
Longe de mim, pobre escriba de coisas ficcionais e inventadas pela imaginação, questionar o senso comum. Mas o caso é que acredito piamente no velho e saudável Aristóteles (aquele que escreveu a "Poética"): a palavra poesia não indica só aqueles textos em versos. Poesia cobre bem mais que isso. É a expressão dos sentimentos em qualquer tipo de produção.
E, em literatura, cobre tanto os diferentes conteúdos expressos em lirismos, dramas, tragédias, quanto os modos de expressão textual - romances, contos, poemas - com que a produção literária se materializa em uma língua. O texto poético pode ser em prosa ou em verso e se reparte entre as referências do mundo natural externo e o mundo subjetivo, entre a materialidade das palavras e a cadência do ritmo, entre a fantasia e a realidade.
Mas entendam vocês que estas considerações não passam de uma birra, ou melhor dizendo, de uma quizila (palavra que vem do yorubá e que é bem mais bonita que a espanhola birria). É coisa de quem vive a criar com as palavras e vira e mexe se ocupa em meter o bedelho onde não foi chamada, ou seja, na sagrada seara dos mestres em teorias.