As Olimpíadas em Paris deixaram um rastro de elogios à performance feminina. E as vencedoras voltaram para casa com muitas medalhas. “As meninas estão numa vibe positiva”, me disse uma garota. Tomara que sim, eu pensei. Mas senti uma pontinha de ceticismo me cutucando a euforia. Como esquecer os séculos em que as realizações e a própria existência de tantas mulheres foram relegadas a segundo plano?
O poder, a liderança e a responsabilidade das funções sociais sempre estiveram sob o domínio dos homens. Quantas mulheres foram criadas entre quatro paredes do lar, sem acesso à educação, isoladas do convívio social e das decisões? No Brasil, só em 1827, elas foram autorizadas a frequentar escolas públicas. E, na literatura, só com muita coragem, algumas se jogaram na dor e na delícia de escrever ficção. Não sem riscos ou sem quiproquós. Escritoras eram ridicularizadas em charges e piadas. Algumas tinham de ter autorização dos pais ou maridos para publicar. Outras eram obrigadas a usar pseudônimos masculinos em seus livros.
Vocês sabiam que, em 1930, a escritora piauiense Amélia Bevilácqua foi primeira mulher a se candidatar a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras? A candidatura causou o maior reboliço. Depois de muito chá, de muito discurso, de muito disse-me-disse, ela foi recusada pelos imortais. A justificativa foi que palavra “brasileiros”, presente nos estatutos da ABL, significava que somente escritores do sexo masculino poderiam fazer parte da honorável instituição.
Mas, no século XXI, mulheres e homens estão vivenciando novas identidades. Novos comportamentos mudam a cara dos gêneros. A questão da identidade ganhou força na esfera pública, cultural, biológica e política. Tal qual os esportes e outros setores que regem a vida das sociedades, a literatura já não é uma ilha povoada pela hegemonia masculina. Embora os homens ainda levem a melhor parte do prestígio literário. Pela literatura, podemos avaliar como anda a igualdade de gênero. E parece que a meta da igualdade de gênero ainda não foi alcançada.
É preciso que todas as pessoas que têm o dom e sentem a necessidade de escrever literariamente escrevam e publiquem para serem lidas. É preciso mais espaço para livros de múltiplas autorias. Fazer literatura é acreditar sobretudo na força da imaginação. E a imaginação não tem gênero específico. Oxalá o legado dessas provas esportivas vividas e vencidas pelas ginastas, lutadoras, jogadoras etc. seja uma cicatriz na pele da humanidade para nos lembrar que não existe apenas uma medida para a produção humana criativa.