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Crônica

Sobre o livro "Planeta Ontem", de João Moraes

Em tamanho que cabe no bolso, o exemplar vem ladeado por apresentação “orelhuda” de Fernando Gomes e posfácio de Hugo Sukman, ambos tomados pelo que me parece uma legítima e genuína admiração pela prosa do escritor capixaba

Públicado em 

26 mar 2024 às 01:50
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

Vivemos em uma época esquisita em que algumas pessoas acham que a literatura tem de ser voltada para questões sociais e identitárias que aprazem às políticas ideológicas. E quem não tem culpa nenhuma disso e só quer escrever acaba “pagando o pato”, expressão usada por Dave Eggers ao comentar o mal-estar da crítica atual diante da obra de Donald Barthelme, um dos mais extraordinários escritores da ficção pós-moderna, no século XX.
Outro procedimento comum no ambiente literário de hoje é a pessoa do autor estar presente em suas obras, mesmo que sejam ficção. Em tempos passados, a pessoa do autor não passava de uma figura oculta nas páginas de um livro. Suscitava a imaginação dos leitores pela ausência física, normalmente desconhecida do público.
Mas agora, o autor se transmuta em presença. Se revela em seus próprios escritos, quando não em persona midiática, com fotografia na capa ou na orelha do livro e entrevistas “com direito a poltrona e copo d’água no estúdio de TV”, como comenta o crítico Ítalo Moriconi.
João Moraes assina o texto “Nas espirais do tempo”
João Moraes  Crédito: Facebook
Essas considerações mais gerais me ocorrem diante de um livro que li e que, ao mesmo tempo, transgride e performa essas duas características acima. Trata-se de “Planeta Ontem”, de João Moraes. Em tamanho que cabe no bolso, o exemplar vem ladeado por apresentação “orelhuda” de Fernando Gomes e posfácio de Hugo Sukman, ambos tomados pelo que me parece uma legítima e genuína admiração pela prosa do escritor capixaba, nascido em Cachoeiro do Itapemirim.
No entanto o melhor cartão de visitas do livro está na apresentação/dedicatória/agradecimentos que dele faz o autor. Com destaque para a homenagem póstuma a sua mãe, responsável pelo quadro ilustrativo da capa. Inclui-se também aquela auto apresentação, na segunda orelha.
Tais elementos são denunciadores da ciranda confessional que circunda os trinta e três (número místico e emblemático!) poemas-crônicas da obra, quando o autor deixa de ser uma incógnita e se desvenda diante de nós, com todos seus tiques, perdas, ganhos, alegrias e desesperos. Não estranhem, portanto, que eu aplique o termo autoficção e essa escritura que habita um “planeta” feito de palavras, posto em órbita em torno do sol pessoal da memória.
Por outro lado, nesse “Planeta Ontem”, a ternura escorre dos textos, embora camuflada e quase pesada, porém saborosa e sutil. Como convém a textos da mais pura literatura. Aquela literatura que por si só já vale como resistência às banalidades do mundo e está se lixando para rótulos pseudamente engajados, ou pior, a serviço de interesses pessoais.

Bernadette Lyra

E escritora de ficcao e professora de cinema. Escreve as tercas-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporaneos

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