Quem se habituou a querelas literárias conhece o disse-me-disse em torno do conceito de “morte do autor”, formulado por Barthes: o autor de uma obra desaparece (ou seja, morre) quando nasce o leitor. O leitor seria o verdadeiro criador de um livro, trazendo suas próprias referências, suas reflexões e seu entendimento para aquilo que lê.
O que Barthes não previa era a obsessão do século XXI pelo desnudamento das intimidades. Hoje, as facilidades tecnológicas propiciam o exibicionismo pessoal. Prova disso é que as pessoas fazem questão de postar nas redes sociais tudo o que se passa com elas.
Esse fenômeno se reflete na literatura. A chamada autoficção virou moda no fazer literário, sobretudo depois da temporada dos blogs. A autoficção se difere da autobiografia por ser um modo de produzir uma identidade artificial do autor. A perspectiva autobiográfica é fiel às histórias reais, mas a autoficção faz uso dos fatos sem se comprometer com a fidelidade à realidade deles.
Tais reflexões me ocorrem à medida que leio “Morte em V.”, de Reinaldo Santos Neves. Desde logo, aplico a esse livro a frase do carioca Bernardo Carvalho com referência a seu próprio romance “Nove noites” (em entrevista ao jornal Rascunho): “O leitor acha que está lendo uma história real, mas é tudo mentira”. Não sei se mentira é um bom nome, em todo caso é um nome apropriado para um refinado ardil de autoficção literária, como é o caso de “Morte em V.”, do autor capixaba.
Observador meticuloso e incansável do mundinho de nossa “ilha ilhada” (como a chamava o poeta Olival Matos Pessanha, injustamente esquecido), Reinaldo sabe que muitas das criaturas e coisas que o cercam não conseguem oferecer nada além de interesses, vaidades e preconceitos obtusos. Então faz uso de sua imensa erudição e de seu gosto refinado, temperados com uma sutil e amarga ironia, para sinalizar tais inutilidades.
“Morte em V.” não é uma leitura fácil. Está mais para uma leitura intrigante. A partir da letra no título. Muitos nela veem a inicial de Vitória, a cidade, em paralelo ao romance “Morte em Veneza”, de Thomas Mann, citado como “o grande” (p.22). Para mim, leitora ainda enredada nas tramas do livro, a letra V. é a figuração da palavra Vida, na expressão “Morte em Vida”.
Mas isso demanda outras explicações, que não cabem aqui, nestes meu curto espaço e meu alinhavar modesto de considerações sobre a escritura de autor que maneja as palavras com precisão tão certeira e tão rara e entrega aos leitores uma obra de tamanha beleza e de tanto esplendor.