A fragilidade é uma condição dos seres humanos, pelo simples fato de que a vida humana inclui a presença inevitável da morte. Talvez por isso contamos histórias. Para dar a impressão de que estamos seguros em nossas crenças e modos de vida. As histórias garantem uma armadura hipotética contra a fraqueza de nossa condição. Digo hipotética porque queremos acreditar (ou fingimos que acreditamos) naquilo que assumimos como motivação de nossas escolhas domésticas, religiosas, políticas, artísticas etc.
Não sei vocês, mas eu penso que, no fundo, as escolhas são apenas reflexos de tudo que nos foi inculcado por um circuito gravado desde nosso primeiro contato com as narrativas de nossa trajetória. Não se devem, portanto, à nossa autossuficiência ou ao nosso distanciamento crítico dos fatos e das coisas como alguns costumam argumentar orgulhosamente.
Quase sempre, esses presunçosos são os que consideram os “outros” como “inimigos”, por não comungarem de suas ideias e de seus princípios, e acham que, por essa razão, merecem o desprezo, a exposição ao ridículo e muitas vezes o “cancelamento”, para usar o termo que aparece nas redes sociais de agora e que atingiu até mesmo Franz Kafka. Por uma estranha coincidência, o escritor acusado de “pornógrafo” nasceu em uma família de judeus. O que não deixa de ser curioso diante de opiniões atuais.
Mas a humanidade precisa das narrativas, para manter uma conexão com o sentido da existência. Sobretudo, porque representam um elo com a inserção das pessoas em uma comunidade. O perigo está quando as narrativas são substituídas pelo vazio das informações.
Hoje, as informações são veiculadas às pencas, pela facilidade e rapidez dos meios de comunicação, sobretudo das redes digitais. Os dados acumulados pelas informações não dão tempo a reflexões mais profundas como fazem as histórias, com seu jogo de luz e de sombra, de acordos e de contradições. “O desencanto de hoje remonta à informatização do mundo”, diz Byung-Chul Han, em “A crise da narração”.
Não se pode negar que estamos vivendo tempos em que a violência do excesso de informações, muitas vezes falsas ou convenientemente adulteradas para fins de proveito pessoal ou de grupos, não concede às criaturas o necessário repouso para um exame sob o prisma de diferentes percepções, diferentes construções, diferentes relacionamentos.
Neste tempo de discórdias e desentendimentos, talvez a literatura e outras artes sejam ainda os últimos refúgios para a criação de histórias que reanimem o cálido e necessário mistério da nossa existência no mundo.