A simples menção à “identidade capixaba” deixa no ar certas indagações. E se sustenta na crença de que o Estado do Espírito Santo é um lugar natural, embora situado entre fronteiras artificiais, resultado de acordos históricos e marcadas por acidentes geográficos: ao Sul, várzeas e alagados espalhados ao longo do curso do rio Itabapoana; ao Norte, suavidade arenosa, vegetação rasteira, dunas e o riacho Doce; a Oeste, a espessura de montanhas, reentrâncias e vales que formam a corrente de pedra do Caparaó; a Leste, só o mar.
Este nosso território seria, de ponta a ponta, varrido por ondas de valor natural, emergentes do fenômeno de identidade, que muitos chamam de “capixabismo” e que diferenciaria os capixabas de outros habitantes do país. Mas, debulhando o pensamento de pesquisadores da modernidade, o que é a identidade, senão um sorvedouro em que giram as definições escolhidas para representar um determinado grupo social, cultural, religioso etc.?
E não é verdade que essas escolhas, para se autoafirmarem, se dão no afastamento, no repúdio e no cancelamento das escolhas de outros grupos tais? A coisa se complica se a gente pensar que essas duas premissas muitas vezes afundam na desinformação ou na manobra encobridora de interesses particulares, mercantis ou políticos. E ainda mais se afundam diante do desenfreado galope atual das tecnologias.
Hoje, as noções de verdade e de realidade são atravessadas por transformações tecnológicas que dão relevância ao ficcional e desestabilizam a confortável divisão entre a aparência e o real. O caldo do consumo e do mercado cozinhou tudo aquilo em que antes se acreditava. E a cultura de tudo e de todos caiu na panela desse ensopado. É fácil ver como grupos sociais, impelidos por um vento ideológico de preservação de sua identidade, tentam fortalecer laços particulares de raiz e de origem, no esforço desesperado de referenciar-se no caos.
Não sendo apocalíptica (apesar de uma quedinha pelo velho e bom Umberto Eco), doutrinar sobre assunto tão controverso é meter a mão em cumbuca, sem saber o que está dentro dela. A minha intenção, porém, é repartir pequenas perplexidades sobre as separações identitárias, justamente quando existe a urgência de adaptação a uma universalidade que atinja o coração de todas as relações humanas, para que a humanidade não desapareça.
Talvez seja necessária a igualdade na diversidade. O que não quer dizer que as diferenças se apaguem, mas que considerem existir e se respeitarem, umas ao lado das outras, sem perder a própria essência, como fazem as muitas cores no corpo de um camaleão.